segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O (des) mentido


O desmentido tomou a todos de surpresa. Ninguém estava preparado para absorver o impacto da negação de certezas até então imutáveis, desde sempre dadas, incontestáveis. O desmentido não podia ser verdade (sic...), pois desferia um tiro mortal na própria verdade até então inabalável! O desmentido soava como um absurdo capaz de deixar o mais descrente prostrado. A partir dessa descoberta, tudo o mais passava a ser alvo da desconfiança. Os sintomas de desesperança se instalaram. A desorientação assumiu seu posto na atmosfera. Mesmo os mais descontraídos emitiam sinais de desconforto, de desassossego. A desilusão parecia contagiar indiscriminadamente, como uma espécie de vírus desassombrado.

Os sorrisos e a alegria desapareceram. Até as crianças davam mostras de desânimo, descartaram as brincadeiras. Os adultos já não se importavam em esconder seus desafetos, destratavam-se uns aos outros, desentendendo-se mais do que o habitual. Ninguém se preocupava em desfazer mal-entendidos. O destempero vinha à tona despudoradamente.

No princípio, alguns tentaram deslindar as causas do desmentido. Mas, após desesperadas reflexões, desistiram. No máximo, concluíram serem vítimas do desatino do destino. Bem diferente, aliás, do desenhado no imaginário dos otimistas mais destemidos. O futuro, na melhor das hipóteses, descambara morro abaixo.

Algo ficou evidente: todos estavam despreparados, seus sonhos foram desmontados, suas esperanças desativadas, suas existências desarrumadas. O despropósito de seus cotidianos fora desnudado. Suas convicções foram atravessadas pela espada do desdém.

Houve quem saísse correndo desabalado, tal como um desmemoriado, mas outros desabaram ao chão, desfalecidos pela inconformidade. Qualquer iniciativa revelava-se descabida. O descrédito em si e nos demais descortinava, mais cedo ou mais tarde, o desalento do espírito individual e coletivo. A desunião já podia ser desmascarada.

O desmentido, em última análise, tivera o efeito de uma explosão descomunal nas mentes e nos corações, cujo efeito como que desconectara desde desempregados até despudorados acumuladores de capital. Até então, o deslumbramento socioeconômico, o desenfreado avanço das tecnologias, as descobertas e inovações em todos os setores, despertavam a sensação do pleno domínio. A civilização só tinha um objetivo: desfrutar, assumindo seu desapreço desmedido com o contexto de vida no qual apenas estava inserida como uma parte do todo.

Nenhum desentranhar de consciências desativou ou desencorajou os desmandos desferidos pelo desbravamento civilizatório-tecnológico. A desintegração das mínimas condições de harmonia foi desdenhada. Chegava a ser desonroso não projetar mais desenvolvimento, não importando as conseqüências, as despesas impagáveis com o meio ambiente que se avolumavam por conta da devastação.

O desleixo com os despojos das ações humanas desfiguraram o mundo. Os desgovernos globais, despreparados e/ou desinteressados disfarçavam o desregramento com medidas simbólicas, paliativas no máximo. Os desembolsos designavam as legislações, nada despertava a desconstrução da terra, do céu, da água, da atmosfera, pois a ética tomara o caminho do desterro.

Fora do desempenho, tanto para indivíduos, quanto para instituições, para indústrias, tudo o mais não passava de desdouro. O consumo não concedia descontos. O desencaixe da ordem social era alvo de desprezo. Quem destoasse, estava despedido do convívio entre seus iguais, caia em desgraça, transformava-se em um desordeiro, um desajustado.

Dessa maneira, desindustrialização soava como uma desdita, uma desumanidade. A desertificação dos solos férteis criava cenários desoladores. O desmatamento só se desconjuntava nos discursos. A despoluição dos rios foi desleixada. A maioria permanecia desatenta, desinformada, ou até desejosa, à descarga de agrotóxicos na alimentação, não sentindo sequer um desconcerto ao desembalar ou desarrolhar remédios, medicamentos, crendo fielmente no desempenho da saúde enquanto produto. Nem mesmo as destemperanças climáticas, e suas desmedidas conseqüências, serviram como advertência.

O desencantamento final chegara ao ápice com as ações até então perpetradas. A desintoxicação já não era mais possível. A desintegração da existência descortinava-se. Para piorar, as inciativas alternativas logo passavam a incorporar o status quo e desintegravam-se. A vida estava destroçada. Destruída.

O desmentido, enfim, desfraldou a sentença: os homens não sobreviveriam ao desrespeito desnaturado à natureza.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A sueca (den svenska)

Depois de alguns dias deliciando-me com a arte e a beleza da capital da Toscana, segui rumo à Viena. Na capital austríaca, tive uma estadia, digamos, ao ritmo de Mozart. Dalí tomei o trem até Munique. Tudo transcorreu de maneira tranqüila. Afora alguns pequenos sobressaltos, nenhuma situação inusitada abalou a minha breve temporada na disciplinada e ao mesmo tempo transgressora cidade alemã.

Depois de quatro dias, segui viagem até Hamburgo, onde tomaria um trem para a Noruega. Na estação, já percebi uma leve animosidade por parte dos funcionários da Banhof. Um pedido de informação era respondido com rispidez, em um idioma ininteligível, ao menos para os meus ouvidos. Mas tudo bem, já estava acostumado, casos semelhantes ocorriam vez por outra, embora não fosse a regra.

No início da noite, aboletei-me em uma cabine já com outros quatro ocupantes. Logo à entrada, à direita, uma mulher morena, compleições acentuadas, pouca altura, por volta de 30 anos. Ao seu lado, um jovem de 20 e poucos anos, loiro, produto típico daquelas paragens. À frente dele, um tipo simpático, com mais de 50, roupas coloridas, pele clara também, postado junto à janela. Na poltrona do meio, outro rapaz, igualmente alvo, de pernas longas, magro, quem sabe 25 anos, com típicos trejeitos de turista “larguei tudo e vou conhecer o mundo”.

Sentei em frente à mulher, de pele mais escura, assim como eu, aliás. Poderia ser uma latino-americana ou, quem sabe, uma árabe, conjecturei. Quando o trem partiu, o sujeito mais velho da cabine iniciou uma conversa com os demais ocupantes. Trocando frases e palavras em inglês, soubemos que ele era um escritor, uma dessas pessoas que se aventuram mundo afora e depois escrevem tratados sugerindo roteiros.

O escritor falava animadamente quando, de maneira abrupta, a porta da cabine foi aberta. Uma alemã com jeito de halterofilista, olhar de psicopata, calças e casaco azul, camisa branca, quepe preto, pediu secamente pelos bilhetes.

Seguro, tranqüilo, apresentei a ela o carnê que me dava direito a viajar por 30 dias por toda a Europa. A alemã olhou, folheou, dirigiu um olhar ferino que me atingiu, desconcertando-me. Examinou-me da cabeça aos pés e começou a esbravejar balançado com a mão direita a passagem, indicando haver algum problema. Pelo visto, muito sério.

Eu simplesmente não entendia nada, absolutamente nada do que ela falava. Procurei argumentar, em inglês, sobre a validade do meu bilhete. Na medida em que eu abria a boca, ela ficava mais furiosa, dava a impressão de recusar qualquer explicação. Decididamente, não foi muito difícil compreender a situação: estava em uma enrascada, a funcionária do trem me ameaçava.

Em total desespero, olhei para os companheiros de cabine. Ninguém moveu uma sobrancelha. Todos, em silêncio, permaneceram impassíveis, distantes. Nem mesmo o afável escritor esboçou qualquer gesto.

Quando já estava imaginando como seria ficar preso na Alemanha, ouvi uma voz feminina. Era da única passageira presente na cabine. Sim, a mulher de cabelos pretos iniciara um diálogo com a irredutível fiscal. Após trocar algumas frases com a alemã, a companheira de viagem dirigiu-se a mim:

- Olha, você deveria ter pagado uma taxa antes de embarcar. Só o teu bilhete não vale para esta viagem. Você precisa pagar agora, ou então descerá na próxima estação e será encaminhado para a segurança da Banhof.

Meu Deus! Imaginei estar sonhando. Não era possível. Alguém falando português comigo! Era inacreditável, mas estava acontecendo! Respondi à minha interlocutora se ela sabia o quanto eu deveria pagar. Ela devolveu a pergunta à fiscal e voltou a falar comigo:

-100 dólares.

Prontamente, enfiei a mão por dentro da camisa, abri o zíper do bolsinho, retirei de lá uma nota de 100, e humildemente, cabisbaixo, estendi à fiscal, que em troca emitiu um comprovante em uma maquininha, entregando-me com um gesto rude. Bateu a porta, foi embora, Graças a Deus. E à minha providencial companheira de viagem.

Desabei na poltrona, aalvo pela mulher de cabelos pretos. À minha frente, ela sorria. Expus sem constrangimentos toda a minha gratidão, em português.

- Não se preocupe, está tudo bem.

Sim, agora estava tudo bem, graças a ela.

Mas quem seria a minha benfeitora, a minha fada protetora?

- Meu nome é Gunilla, sou sueca, moro em Estocolmo.

Procurei disfarçar a minha surpresa. Afinal, o meu imaginário estava povoado de estonteantes suecas louras.

Mas como você conhece a língua portuguesa, perguntei.

- Namorei um africano, de Angola.

É claro: Gunilla não era fluente no idioma de Camões, porém nos entendíamos bem. Ao longo da viagem, até chegarmos à costa, e tomarmos uma embarcação, com trem e tudo para a Noruega, nos conhecemos mais.

Gunilla, funcionária dos Correios da Suécia, era uma viajante inveterada., Vivia na estrada.

Combinamos de nos encontrarmos em Estocolmo, para onde eu iria depois de visitar Oslo. Ela me deu o seu telefone. Ao chegar à capital sueca, depois de me instalar em um agradável hotel, liguei para ela. Combinamos um encontro, em uma estação do metro, às 10 horas de um dia qualquer quase ensolarado.

Convidou-me para almoçar em sua casa, que ficava em um bairro da chamada cidade velha de Estocolmo, um lugar especial, construções antigas, de um tempo remoto. O apartamento da minha nova amiga ficava em um edifício cujas paredes tinham mais de um metro de espessura.

Gunilla preparou pequenos peixes fritos, acompanhados de batatas ao vapor. Enquanto comíamos, trocamos impressões, falamos das nossas vidas. Ela é artista, trabalha com tapeçaria, agora tem um site onde expõe sua arte.

Depois do almoço, fomos passear. Ao me deparar com uma discoteca, não resisti e comprei dois discos do Caetano Veloso para a minha anfitriã. Ao cair da tarde, despedimo-nos.

Dalí rumei até Copenhagen. Voltei a rever Gunilla três anos mais tarde, em Paris – ela se deslocou à capital francesa especialmente para se encontrar comigo. Tentei convencê-la a vir ao Brasil. Sem sucesso. Durante algum tempo, perdemos o contato. Em 2009, graças à internet, voltamos a conversar.

Nutro até hoje uma enorme gratidão à sueca que fala português, minha salvadora, hoje uma querida amiga. Que prometeu me visitar neste final de ano.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Andanças V: Choclo

Minutos após desembarcar no aeroporto de Lima, capital peruana, depois de um voo desde Cusco, fui tomado por uma intensa irritação, uma justificativa para fumar um pouco mais do que o habitual. O combinado com a agente de viagens, que dias antes me vendera um pacote para Machu Pichu, não estava acontecendo. Ou seja, não havia nem sinal do carro que deveria me apanhar e me levar até o hotel.

Enfurecido, fui até um telefone público e contatei com a agente, que conhecera no saguão do hotel. Expressando-me com o típico portunhol, vociferei minha inconformidade. A mulher - deveria ter cerca de 35 anos e alguns quilos a mais - disse-me para ficar tranqüilo, em poucos minutos o carro chegaria.

Dito e feito. Não se passaram 15 minutos e um sedan preto Toyota estacionou junto à área de desembarque. Ao volante, a mulher, ela mesmo, sorridente. Pedindo desculpas pelo transtorno, colocou minha bagagem no porta-malas do carro e convidou-me para embarcar.

Logo após sairmos do perímetro do aeroporto, perguntei à agente – não lembro seu nome – onde seria possível saborear uma típica comida peruana. A mulher me questionou se esse era o meu desejo realmente. Confirmei. Ela não falou mais nada. Seguimos.

Minutos depois, o Toyota ingressou em uma área quase desabitada. A mulher não falava nada. Eu, menos ainda. Talvez o mal-estar do desencontro ainda estivesse surtindo seus efeitos. Deduzi, porém, que ela estava me levando para algum restaurante.

O problema é que cada vez mais ingressávamos em uma zona deserta. Em ambos os lados da estrada asfaltada, dunas de pedras, uma paisagem planetária.

Os motores da paranóia ligaram automaticamente em meu cérebro. Comecei a ficar preocupado. Mas afinal, onde estávamos indo. Para fora do perímetro de Lima? Tentei demonstrar tranqüilidade, puxei assunto, a mulher respondeu monossilabicamente.

Enfim, passei a cogitar seriamente a hipótese de seqüestro. A mulher ficou enraivecida com a minha cobrança e resolveu se vingar, conjecturei. Talvez me entregando para o então ativo movimento terrorista local. Ou quem sabe eu estava prestes a ser vítima de um singelo latrocínio, sem a mínima chance de deixar rastros.

De repente, o cenário foi se alterando, ao poucos algumas casas emolduraram a paisagem. Logo percebi: não eram residências típicas da periferia de uma capital de um país latino-americano. Ao contrário, dispostas em grandes terrenos, as construções revelavam o bom poder aquisitivo de seus habitantes.

Até aí nada de mais. Afinal, não é tão incomum sequestradores investirem em esconderijos para abrigar suas vítimas.

Enquanto a paranóia corria solta em minha cabeça, o carro estacionou em frente a uma casa com um frondoso jardim, cercada de grades altas.

-Chegamos, disse a agente, desligando o veículo. Bem, você queria experimentar uma comida típica peruana, não é?

-Sim, sim, respondi.

Então estou te convidando para almoçar com a minha família.

Por um momento avaliei as possibilidades. Percorri com olhos argutos as redondezas, tentei verificar o interior da residência. Decididamente, eu podia relaxar.

Nunca, jamais, poderia imaginar o que me esperava.

Logo ao ingressar na habitação, a agente me apresentou ao seu marido, um simpático cabelos grisalhos, que me recepcionou com um largo sorriso na imensa sala onde degustava uma bebida.

Seguindo a minha a agente, atravessei a enorme casa, indo parar nos fundos, onde a água verde de uma piscina resplandecia ao sol do meio-dia peruano. Em volta do quadrilátero aquoso, um piso de pedras de um basalto rajado acomodava três ou quatro mesas, abrigadas sob um guarda-sol.
Duas jovens de biquíni, bem torneadas e bonitas, fizeram uma nova recepção. Eram as filhas da agente, cujo marido tinha ocupado até bem pouco tempo o cargo de ministro de Estado.

Eu estava extasiado. Não pelo lugar, pela comodidade, pelo conforto, e sim pela recepção, pelo carinho e simpatia dos peruanos.

Gastamos alguns minutos jogando conversa fora, dei a minha ficha, falei do Brasil, essas coisas.

A alguns metros das mesas, onde conversávamos animadamente, uma espécie de churrasqueira fumegava. Mas o cheiro não era de carne. Uma senhora mantinha guarda, examinando a cada instante o andamento da operação.

Quando ela se dirigiu às mesas, com uma travessa ainda exalando vapores, houve um ooohhh e palmas dos anfitriões.

O imenso prato continha enormes espigas de milho, o choclo, de suculentos grãos de um amarelo intenso. Um autêntico prato típico, seguido de outros, que não lembro bem. O choclo, porém, ficou gravado.

Após o lauto almoço, a agente apresentou-me a um senhor dos seus 50 anos. Era outro de seus empregados. Explicou-me: determinara a ele a tarefa de sair comigo para mostrar-me a capital. Só com um detalhe: como ela precisaria do Toyota, iríamos fazer o tour de fusca. E eu ia me importar?

Despedimo-nos, agradeci mil vezes. A agente me deu seu cartão – lamento até hoje não ter guardado com o devido cuidado. O marido me cumprimentou fraternalmente, as filhas também me afagaram.

Terminava uma experiência maravilhosa de convívio e iniciava outra. O senhor encarregado de me mostrar as belezas de Lima era simplesmente admirável. Um sujeito com pouca instrução, que transpirava bondade, gentileza, generosidade.

Durante o tempo em que percorremos as ruas de Lima,visitando algumas atrações da cidade, em mais ou menos quatro horas, consolidamos uma relação aparentemente iniciada há anos. Ele era incrível, uma pessoa, como se diz atualmente, do bem – mas não guardei o seu nome.

Aquele homem, já com alguns cabelos brancos, resumia a essência do caráter e do espírito do povo peruano, se é possível generalizar.

Conforme o combinado, no outro dia ele foi me buscar no hotel, pois me levaria até o aeroporto. Sua filha adolescente o acompanhava.

A despedida foi fantástica. Ele desabou a chorar como uma criança, enquanto me abraçava.

Por um momento, contudo, se recompôs, colocou a mão no bolso do casaco, e tirou um pequeno embrulho, entregando-me. Pediu desculpas por não poder me presentear com algo de mais valor. Mas garantiu: era de coração.

Rasquei o papel e vislumbrei um pratinho, do tamanho de um pires, decorado com dois pássaros azuis.

Abracei aquele homem simples, de uma intensidade afetiva difícil de encontrar, e igualmente não consegui conter a emoção.

Nunca mais reencontrei os meus amigos peruanos. No entanto, sempre me lembro deles com um grande carinho.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Andanças IV: Fórmula 1

Depois de longas horas de viagem em um trem que tomara em Bari, após desembarcar de um navio que me trouxera da Grécia, dividindo uma cabine com duas matronas brasileiras,(queridas, brindaram-me com uma carteira de cigarros Hollywood) cheguei Milão. Tinha um objetivo definido, do qual não me afastei, apesar da tentação de ao menos conhecer o Duomo milanês: chegar a Mônaco para, no dia seguinte, um domingo, assistir a uma corrida de Fórmula 1, ver Airton Senna em ação.

Portanto, não perdi tempo: desci em uma plataforma, procurei informações, embarquei em outro trem. Meia hora após, apreciando a paisagem fugidia, passei a considerar a possibilidade de alguma coisa estar errada.

A elucubração tinha como base a seguinte premissa: o principado de Mônaco fica no litoral. Porém, o trem só escalava montanhas. Subia, subia.

Fiquei preocupado. Tratei de esclarecer a dúvida, conversei com um casal. Em um italiano palatável, explicaram-me: aquele comboio se dirigia a Bolzano e, depois, à Áustria, ou seja, o oposto do lugar onde os motores da fórmula 1 roncariam.

Como dizem todos, fazer o quê? Por sugestão do solícito casal, desembarquei em uma pequena estação, esperei outro trem, retornei à Milão, certifiquei-me mil vezes do destino, e ingressei no veículo cujo destino final seria o principado.

A viatura, percebi logo no início do trajeto, estava sob o controle de ferroviários que falavam francês. Inclusive ocorreu algo inusitado:

Compartilhava a cabine com quatro ou cinco jovens barulhentos, todos norte-americanos. Quando o fiscal veio fazer a conferência dos bilhetes, perguntou a nacionalidade dos passageiros. Ao saber a minha nacionalidade, cobriu-me de mesuras, foi extremamente gentil, fez referência ao maravilhoso país onde eu nascera. Já os ianques foram tratados grosseiramente.

Mônaco fervilhava naquele início de noite de sábado, véspera da corrida mais tradicional do circuito da fórmula 1. Gente de toda a Europa, predominando os tifosi italianos, os fanáticos torcedores da Ferrari.

Primeira providência: encontrar um hotel, um lugar enfim para me hospedar. Foi algo quase tão impossível como, nos dias atuais, Felipe Massa ser campeão. Os estabelecimentos, via de regra, estavam lotados. Depois de muito perambular e ouvir não e não – deixara a mala em um guarda-bagagem na estação ferroviária - encontrei uma vaga disponível em um hotel razoável. O preço equivalia a 100 dólares.

Prevaleceu a obsessão de poupar,tomei uma decisão: ficaria acordado a noite toda. Afinal, considerei, estava em Mônaco, cidade dos cassinos, de uma intensa vida noturna, em véspera de grande prêmio. Não seria difícil ocupar e passar o tempo.

Ledo engano. Uma atitude absurda. Talvez tenha sido uma das noites mais árduas da minha vida, cansativa, com entradas e saídas regulares em bares, para tomar café ou, no máximo, um refrigerante; com caminhadas por calçadas desertas da cidade. É claro: nem cheguei a cogitar uma entradinha em um cassino, talvez para arriscar a sorte, nos números ou, quem sabe, uma companhia agradável. Seria uma fortuna!

Não agüentava mais o cheiro de café e cigarro quando começou o amanhecer. Percorri, então, as ruas onde se desenvolve o circuito no qual, algumas horas depois, intérpretes pilotos colocariam suas existências sob risco em busca da vitória gloriosa.

Quando o sol se afirmou por entre as luxuosas embarcações ancoradas nos cais de Mônaco, encerrei a maratona noturna. Estava demolido, arrasado. Ao menos nada de pior me acontecera, nunca me senti ameaçado, a sensação de segurança foi plena. Uma noite circulando, mesmo no pequeno paraíso dos ricaços, tomando café, fumando, foi demais.

Abatido, enquanto procurava um lugar para comer um sanduiche ou algo parecido, fui acometido por um doloroso arrependimento. Por que não ficara no hotel, por que eu tinha surtos de avareza, com consequentes sacrifícios inúteis?

Apesar de tudo, não aprendi a lição. Enquanto a manhã avançava, o frêmito aumentava por conta da corrida. Ao mesmo tempo, crescia em mim uma resistência em pagar 150 dólares pelo ingresso em uma das arquibancadas montadas para receber o público.

Examinei as possibilidades. Percebi vários pontos ao longo do trajeto onde seria perfeitamente possível olhar os bólidos passando. Vi alguns sujeitos se colocando nesses lugares estratégicos. Se eles podem, por que eu não posso, perguntei a mim mesmo.

Achando-me esperto, instalei-me próximo a uma curva, em uma escadaria. Duas horas antes de a corrida iniciar, lá estava eu, animado, contando em pensamento os dólares economizados desde a noite anterior.

De repente, a polícia. Sem muita conversa, retiraram a mim e a outras três pessoas que se refestelavam nos degraus, só esperando os carros passarem.

Fiz mais duas ou três tentativas, mas a repressão se repetiu. Resumindo, não vi nem um lampejo do vermelho e branco da Mac Laren de Senna.

Como consolo, ao menos o barulho ensurdecedor das potentes máquinas, em plena atividade em uma corrida oficial, eu ouvi.

No retorno ao Brasil, se fosse necessário contar a domingueira de Fórmula 1, não seria difícil dourar a pílula. Afinal, nenhum conhecido testemunhou meus desatinos.

Para todos os efeitos, como comprovavam algumas fotos, estivera em Mônaco em um dia de corrida de Fórmula 1.

De qualquer maneira, não esperei nem ao menos o fim da competição para saber quem vencera. Amuado, mais dolorido do que fiquei na noite passada no navio, onde fora obrigado a dormir no chão (comprara uma passagem das mais baratas, sem direito a camarote ou ao menos a uma cadeira), muito cansado, decidi ir embora.

Assim, em uma tarde de domingo muito agitada na terra onde já reinara a princesa Grace, arrastei a minha mala para dentro de uma cabine de trem, rumo a Milão, novamente.

Ao contrário da vinda, o retorno foi muito diferente. No mínimo.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Andanças III: tragédia grega

Lá estava eu no dito berço da civilização ocidental. Decepcionado com a escassez de monumentos e obras dos memoráveis tempos dos descendentes de Platão, entristecido ao me deparar com alguns pedaços de colunas e algumas cabeças de deuses dos (restos de) acervos dos museus locais, um pouco chateado com o nariz empinado dos nativos, misturei-me a uma multidão formada por pessoas de todas as partes do mundo. O sol de primavera era suficiente apenas para deixar os turistas animados na movimentada praça em frente ao parlamento da Grécia, em Atenas, na forma e no conteúdo muito distante, é natural, do ideal democrático que ali mesmo floresceu.

Caminhava sem compromisso, olhando a casa dos políticos gregos, apreciando o piso de cerâmica sem, porém, deixar de prestar atenção à minha volta. Viajante solitário, na ocasião, procurava ter mais cuidado para não viver qualquer situação desagradável. Já percebera: alguém sozinho em paragens estrangeiras sempre é mais visado, ao menos por policiais e seguranças, especialmente em aeroportos e terminais ferroviários.

Pois de repente notei a aproximação de um sujeito. Ele falava uma mistura de idiomas, talvez com uma prevalência do inglês. De início, surpreso, imaginei: ele está conversando com alguém próximo a mim. No entanto, não havia ninguém tão perto. O negócio era comigo mesmo.

Nunca mais esqueci as feições, os gestos, a maneira como aquele homem tentava dialogar comigo. Deveria ter entre 40 e 50 anos. Cabelos prateados (é, é isso mesmo), com talvez 1m75 de altura, relativamente forte, um rosto rosado de onde emergia um sorriso simpático acima de qualquer suspeita.

Tentei ser educado, sem deixa de demonstrar não ter qualquer interesse em levar adiante a conversa. O sujeito, porém, insistia. Começou fazendo referência ao clima agradável, à manhã ensolarada. Depois quis saber a minha nacionalidade.

Soltou uma exclamação quando disse ser brasileiro. Pareceu-me ter ficado mais à vontade, mais descontraído, enquanto agregava palavras em espanhol na sua verborragia.

A partir daí, iniciou-se uma verdadeira batalha. De um lado, aquela pessoa que exalava simpatia, querendo me convencer a me levar para um lugar que eu não conseguia entender bem do que se tratava. Eu, resistindo, agradecendo.

De nada adiantou. Quando me dei conta, estava caminhado ao lado do sujeito, cuja boca não se fechava nunca, entremeando sorrisos e frases incompreensíveis.

Às vezes, eu fazia menção de voltar atrás, recuava.Porém, ele retomava a carga. Em meio à profusão de frases em inglês, espanhol, e dialetos desconhecidos, decifrei algumas palavras: bar, brasileira. Sim, brasileira, no feminino.

Com mesuras, o “anfitrião” seguia abrindo caminho entre a multidão, levando-me para o desconhecido.

Confesso: estava consciente do risco de continuar ao lado do sujeito, indo não sabia para onde.

Em última análise, bastava tomar uma postura intransigente, definitiva: não, não quero seguir, ponto final.

Mas, mesmo tendo noção do perigo, continuei seguindo o grego. Talvez por um enfeitiçado por um efeito dionisíaco.

Após alguns minutos, chegamos a uma espécie de galeria, com lojas enfileiradas uma ao lado da outra, divididas por um corredor pavimentado. Logo percebi: o fim da jornada chegara.

Em um impulso, dei dois ou três passos para trás. O grego, contudo, não estava disposto a perder a presa.

Com delicadeza, mas resoluto, abraçou-me como um pai abraça um filho desorientado.

Então desisti: seja o que Deus, ou melhor, os Deuses quiserem.

Avançamos galeria adentro. Paramos em frente à terceira loja.

Diferentemente das outras, não havia vitrine, produtos expostos. Apenas uma porta de madeira maciça, talvez arrancada da floresta amazônica. Ao seu lado, um aparelho de ar condicionado resfolegava.

Entramos. Minhas suspeitas se confirmaram. Tratava-se de um bar de encontros, um pequeno bordel, nada muito diferente dos similares no Brasil. Penumbra, música, fumaça de cigarro, mesinhas, mulheres.

O grego, cujas intenções agora se revelavam por inteiro, chamou uma das mulheres espalhadas pelo ambiente, perdidas na penumbra. Não recordo o nome dela. Embora fosse especial, como o meu anfitrião insistia em repetir.

Uma brasileira! Por isso o grego insistiu tanto comigo. Imaginou, na sua experiência de cafetão o inevitável padrão: um macho brasileiro naturalmente gostaria de transar com uma compatriota sob os olhares dos deuses do monte Olimpo.

A mulher, baixa, aparentando uns 30 anos, foi chegando perto do compatriota, a esta altura completamente apavorado. Cumprimentou-me com um sorriso mecânico, disse o seu nome, falou ter nascido mineira, convidou-me para sentar em uma mesa.

Por medo ou por interferência divina, sai da letargia, reagi. Mas com muita parcimônia, com cautela, não revelando a inquietude íntima. Afinal, estava em um terreno minado. Delicadamente manifestei o desejo de ficar junto ao balcão, atrás do qual se movimentava um mal encarado barman.

Analisei rapidamente a situação. Transar com a conterrânea, nem pensar. Tudo poderia acontecer no quarto, ainda mais que eu era uma espécie de homem-bomba-otário. Só que ao invés de explosivos, carregava, junto ao corpo, mais precisamente nos flancos e na barriga, dois bolsos de pano presos a elásticos, onde estavam acondicionados cheques de viagem, dois mil dólares em dinheiro, passaporte, carnê de passagens de trem, bilhete do avião.

Uma vítima perfeita.

Senti o suor brotar da testa. Precisava fazer alguma coisa. Perguntei à brasileira se ela gostaria de beber algo. Ao mesmo tempo, pedi uma bebida, um suco de frutas sem álcool, para estupefação do barman, que já servira um drink “não-sei-do-quê” à mulher.

Tomei minha porção em dois ou três goles. Ressalte-se: fiquei atento ao preparo, cuidando para ver se o mal-encarado não colocava algum pozinho no copo.

A melhor estratégia seria deixar rapidamente o local. A mulher já se insinuava, acariciando o meu braço, fazendo caras e bocas. Recusei com delicadeza os afagos argumentando estar com muita pressa, infelizmente não havia como ficar.

Pedi a conta. Foi uma fortuna. De qualquer modo, um gasto calculado: vão-se os anéis, ficam os dedos.

E então chegou um momento, digamos, de adrenalina a mil. Despedi-me da mulher. O cafetão não estava mais na área, provavelmente voltara à praça, em busca de novos incautos. Meu medo era encontrar a porta trancada. Mas ela abriu.

Deixei a galeria em um átimo, ganhei a rua, o sol continuava brilhando. Meu coração queria sair nela boca, as pernas começaram a tremer.

Sem deixar de, vez por outra, olhar para trás, caminhei como um maratonista digno das antigas olimpíadas. Boca seca, cabeça em frangalhos. Não parei enquanto não cheguei ao hall do hotel onde estava hospedado.

Uma jovem, dos seus 20 e poucos anos, sentada em uma poltrona, lendo um jornal, notou minha entrada esbaforida. Apesar da circunstância, ainda tive forças para perceber o quanto ela era linda, uma deusa grega. Pronta para me sacrificar no altar do amor alertou-me a minha confusa mente.

Com a sutileza da sedução, ela me olhou de forma penetrante. Desviei o olhar, fixei-me nos botões do elevador. Quando a porta abriu, entrei acelerado.

Nenhuma Diana seria capaz, àquela altura, de convencer-me sobre as delícias das alcovas do Olimpo.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Andanças 2: Kiwi

Não havia a movimentação corriqueira dos horários de pico, tipo final ou início das jornadas de trabalho. Nenhuma leva de gente apressada dificultava o trânsito pelos corredores azulejados do metro de Madri naquele dia qualquer dos estertores da década de 80. Aqui e ali, em pontos estratégicos, os habituais músicos alugavam seu talento não reconhecido por algumas moedas.

De repente, vejo um sujeito postado atrás de um pequeno caixote, segurando em cada uma das mãos embalagens de plástico entrelaçado, onde estavam acondicionados diversos exemplares de uma espécie de cilindro com cerca de 3 a 4 centímetros de comprimento e uma circunferência de três centímetros, mais ou menos isso. Uma superfície que parecia áspera, aparentemente povoada de diminutos fios, pintada de um verde esmaecido, só contribuía para aumentar o mistério.

Não resisti. Aproximei-me do vendedor e expus com franqueza a minha ignorância. Afinal, o que era aquilo? Sem esboçar um sorriso de tolerância compreensiva, o rapaz respondeu com uma frase curta: é uma fruta. Completou dizendo o nome da respectiva, mas não entendi. Pareceu-me algo semelhante a quici, quili. Apurei os ouvidos, insisti, forçando-o a repetir: quivi, quivi – ou seja, o hoje disseminado kiwi..

Ah, bom! E quanto custa, perguntei. O vendedor falou um valor em pesos – o euro ainda não era a moeda corrente de países, como a Espanha, que passaram a integrar a União Europeia alguns anos depois.

Achei muito caro. Voltei à carga: mas não é possível vender apenas dois ou três frutos, ao invés do pacote inteiro? Com um sonoro não como resposta, não me restou outra alternativa a não ser desistir de tocar, de conhecer, de saborear aquela fruta intrigante.

Chateado, porém conformado, tratei de aguardar o trem que me levaria à estação do museu do Prado. Caminhei uns 50 metros até chegar à plataforma onde o bólido pararia, depois de emergir da boca escura do túnel.

Levei um susto quando senti um toque em meu ombro esquerdo. Dei um passo à frente, virei o corpo, fazendo pose de quem pretende desafiar a surpresa. Medo tolo. Não havia beligerância por parte do autor, ou melhor, da autora do sutil cutuco. Fiquei um pouco encabulado.

Ela sorria. Deveria ter vinte e poucos anos, quem sabe um metro e sessenta de altura, olhos escuros, cabelos pretos. Vestia um casaco de lã marrom, listas brancas. Uma luva, também marrom, cobria a mão esquerda, enquanto a direita, sem luva, segurava um um embrulho pardo.

Tudo foi muito rápido – rápido demais.

Sempre sorrindo, ela estendeu a mão com o pacote em minha direção. E disse:

Para usted!

De forma mecânica, segurei o invólucro, olhei no seu interior, identifiquei quatro daqueles frutos estranhos que tanto aguçaram a minha curiosidade e que, por avareza, não havia comprado minutos antes.

Fiquei pasmo, sem palavras, olhava para os frutos, para a jovem.

Ela notou o meu embaraço; para abreviá-lo, ela recuou dois passos, acenou com a mão direita, despedindo-se.

Certamente a jovem presenciara o meu colóquio atrapalhado com o  vendedor, percebera a minha curiosidade, talvez tenha imaginado que eu não fizera a compra por falta de dinheiro. E então resolveu me presentear com quatro kiwis.

Antes de embarcar no trem, ainda a vi na plataforma em frente a que eu estava. O valo em cuja superfície se assentam os trilhos nos separava. Acenei, sorri. Ela retribuiu.

Nunca mais a vi. Nunca mais a esqueci. Desde então, o kiwi entrou na minha vida. Para não sair.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Andanças (1): sapatinho de bebê cubano

Ah, as viagens! Nada melhor pode existir. Conhecer novos lugares, pessoas, culturas, hábitos. Apenas as viagens nos proporcionam situações inusitadas, surpreendentes. Para o bem e para o mal. De certa forma, quem viaja busca um pouco do inesperado. Afinal, ao deixar para trás os limites dos territórios conhecidos, perde também a pretensa sensação de controle. Quando estamos além das fronteiras da nossa rotina, sujeitamo-nos a sermos alvos, agentes de experiências, de vivências incomuns ao cotidiano de sempre. Ficamos à mercê do acaso, às vezes do ocaso, enquanto cumprimos eventuais roteiros pré-definidos, só para fazer de conta que estamos segurando as rédeas do destino. No fundo, ansiamos pela expectativa de sentir certo medo, aguardamos o receio do desconhecido, buscamos o imprevisível.

Ou seja, queremos o diferente, quem sabe para injetarmos algumas poções de adrenalina no nosso dia a dia. Talvez para sentirmo-nos um pouco mais vivos, para quebrar a melancolia de existências condicionadas, mesmo decoradas pela aura da felicidade até.

Além do mais, somos humanos, curiosos, insatisfeitos, desejosos de sempre conhecer mais, de sempre enfrentar desafios, aventuras, de colocarmo-nos à prova, ou apenas para podermos nos exibir diante dos outros, ou de nós mesmos.

E isso mesmo quando a viagem está relacionada às previsíveis férias do trabalho, “para recarregar as pilhas”, aos dias de veraneio em paragens nem tão distantes do lugar onde passamos a maior parte dos dias do ano, gastando horas em frente à televisão, ao monitor, no trânsito, em bares, restaurantes, cinemas, obedecendo cordialmente os ditames de uma vida programada para consumir.Não importa qual a razão, o motivo. A viagem sempre poderá nos oferecer o inusitado. Talvez como turistas, descompromissados garimpeiros de novos cenários, estejamos mais suscetíveis aos eventos que extrapolam o previsível.

Por isso tenho algumas historinhas, a começar por aquela registrada durante a minha primeira viagem internacional. Antes já estivera, a trabalho, no Uruguai. Mas quando, em janeiro de 1989, embarquei rumo à ilha de Cuba, fiz a minha verdadeira estréia, digamos, descompromissada, em terras estranhas. A escolha pela ilha não decorreu de um interesse ideológico de cultuar o então ativo Fidel Castro. É que, à época, eu namorava uma frenética militante de esquerda.

Episódio 1: sapatinho de bebê

Deixei rapidamente o salão do restaurante do hotel onde estava hospedado em Havana. Um prédio antigo, remanescente dos tempos pré-revolução. Sentia-me um pouco nauseado: além da atmosfera impregnada por um odor de mofo, a comida era horrível, à base de carne de porco insossa, sem qualquer preparo (temperos).

Tomei o elevador sozinho, sacolejei até o andar do meu apartamento. Entrei e fui direto ao banheiro, lavar o rosto. Recompus-me um pouco, dirigi-me à ampla janela que emoldurava a paisagem urbana da capital cubana, tendo ao fundo o verde do mar caribenho. Acendi um cigarro. Quase me afoguei com a fumaça ao perceber a porta abrindo.

Girei o corpo rapidamente, enquanto pensamentos aterrorizantes povoaram minha mente.Deparei-me com uma mulher expressando também certo espanto, talvez com a minha reação de visível pavor. Os trajes a denunciavam: era uma camareira do hotel, ao menos tudo indicava. Notei de imediato sua barriga proeminente, sem dúvida estava grávida. Deveria ter menos de 30 anos, morena, olhos escuros, uma típica cubana.

-Senhor, senhor, perdoe-me pela intromissão, disse a mulher em um espanhol palatável.

Relaxei um pouco, abri a guarda, esbocei um sorriso, percorri o quarto com o olhar, querendo indicar que estava tudo em ordem, que não precisava de seus préstimos. Ao abrir a boca para agradecer e dispensá-la, ela se aproximou. Quase sussurrando, perguntou se poderia pedir um grande favor, mas não esperou pela resposta.

Acariciando a barriga com a mão direita, continuou falando. Esperava dar a luz dentro de dois meses. Cabisbaixa, pediu-me para comprar, nas lojas onde só turistas podiam entrar, um par de sapatinhos, feitos de crochê, desses habitualmente utilizados por recém-nascidos. Fora desses estabelecimentos, explicou, não havia como conseguir, a não ser um produto confeccionado com um material semelhante ao utilizado em sacos de aniagem.
Segurando algumas moedas nas mãos, seu pedido mais pareceu um apelo desesperado.

Em nenhum momento cheguei a cogitar em negar-me a atendê-la. Admito ter ficado comovido, muito comovido.

Recusei o pagamento antecipado. Enquanto ela guardava as moedas no bolso do avental branco, ela sorriu. Parecia aliviada.

Combinamos, então, um encontro para o dia seguinte, logo após o almoço, no mesmo local. A mulher retirou-se, não sem antes agradecer várias vezes.

Assim que a porta se fechou, as forças ocultas da paranóia entraram em ação. Passei a elucubrar: afinal, não seria tudo parte de um esquema para me incriminar. De tão absurda, abandonei a tese sem muito esforço racional.

Sentado no sofá, olhando para as paredes do apartamento, comecei a fazer considerações sobre a crueza do episódio, o destemor singelo de uma mãe, a angústia, o sofrimento daquela mulher, cujo nome, aliás, eu não sabia. Como um desejo tão simples, porém com uma dimensão emocional infinita, não podia ser realizado? Como uma vontade de uma mãe trabalhadora era passível de restrições? Poderia aquela humilde mulher cubana, do início dos anos 90, ser rotulada como uma torpe consumidora capitalista?

Decidi não esperar mais um segundo, resolvi agir. Contei à minha companheira de viagem o ocorrido, pedi sua colaboração. Entre espantada e resignada, ela me explicou melhor as nuances dos sapatinhos de bebê. Afinal, nunca tivera familiaridade com as coisas relacionadas à maternidade.

Assim, cerca de uma hora após conversar com a camareira, lá estava eu rumando em direção a uma das lojinhas freeshop, implantadas em diferentes pontos estratégicos da ilha, uma rentável fonte de recursos para o Estado.

Destinadas rigorosamente apenas aos estrangeiros, restava aos nativos espiar, por entre as paredes de vidro dos pequenos antros do consumo incrustados em meio ao cotidiano de escassez, as maravilhas do capitalismo.

Cubano dentro desses ambientes, só se fosse para trabalhar, como balconista.
Em meio a equipamentos eletrônicos, perfumes, quinquilharias diversas (poucas ainda de origem chinesa), encontrei os sapatinhos. Comprei dois pares, um azul, outro predominantemente cinza.

Não me lembro de outros detalhes, como preço, origem. Só recordo da retirada apressada da loja, o caminhar célere pelas ruas, até chegar ao hotel. A sensação era de estar cometendo uma ilegalidade, um crime. Chegando ao apartamento, escondi “o produto” no fundo mala, afogando-o com camisas, calças, cuecas e meias.

Na manhã seguinte, acordei ansioso, feliz, cheio de orgulho, sentindo-me um grande benfeitor. Embora ainda vez por outra assaltado por uma pontinha de receio. Cenas com imagens de homens fardados, truculentos, revistando minha mala, enquanto a camareira, acorrentada, assistia a tudo impassível, rodavam com insistência na minha tela íntima.

As horas demoraram a passar. Almocei sem tocar nos pratos quentes, só comi a entrada, pão e manteiga. Livrei-me do porco sem gosto.

Por volta de 13h já estava no apartamento, fumando, olhando pela janela.

Então bateram à porta. Estranhei, pois da vez anterior a camareira utilizara a chave mestra. Mas fui abrir. Para meu alívio, era ela, sozinha.

Com um sorriso um tanto encabulado, a futura mamãe agradeceu o convite para entrar. Fui até a mala, retirei o tesouro, devidamente embalado para presente, coloquei em suas mãos, fazendo sinais para ela desembrulhar.
Nunca mais vou esquecer aquele olhar, aquela expressão facial.

A camareira ficou profundamente emocionada ao tocar os sapatinhos. Um breve soluço antecedeu a queda de duas lágrimas pela face morena.

Por alguns instantes, com vigor, ela apertou os sapatinhos junto ao peito. A seguir, tratou de guardá-los, enfiando-os embaixo do avental, posicionando-os no lado direito da barriga. Tirou um elástico do bolso e envolveu o tesouro, fazendo-o integrar-se à barriga.

Agradeceu, agradeceu, tentou novamente pagar, recusei com delicadeza. Abraçamo-nos por um instante, desejei-lhe sorte, ela se retirou. Novamente esqueci-me de perguntar o seu nome.

Acendi outro cigarro. Voltei à janela. Vislumbrei o mar esverdeado. A estonteante beleza natural podia ser apreciada sem restrições por todos, sem distinção. Inclusive pelos nascidos na ilha.