Não havia a movimentação corriqueira dos horários de pico, tipo final ou início das jornadas de trabalho. Nenhuma leva de gente apressada dificultava o trânsito pelos corredores azulejados do metro de Madri naquele dia qualquer dos estertores da década de 80. Aqui e ali, em pontos estratégicos, os habituais músicos alugavam seu talento não reconhecido por algumas moedas.
De repente, vejo um sujeito postado atrás de um pequeno caixote, segurando em cada uma das mãos embalagens de plástico entrelaçado, onde estavam acondicionados diversos exemplares de uma espécie de cilindro com cerca de 3 a 4 centímetros de comprimento e uma circunferência de três centímetros, mais ou menos isso. Uma superfície que parecia áspera, aparentemente povoada de diminutos fios, pintada de um verde esmaecido, só contribuía para aumentar o mistério.
Não resisti. Aproximei-me do vendedor e expus com franqueza a minha ignorância. Afinal, o que era aquilo? Sem esboçar um sorriso de tolerância compreensiva, o rapaz respondeu com uma frase curta: é uma fruta. Completou dizendo o nome da respectiva, mas não entendi. Pareceu-me algo semelhante a quici, quili. Apurei os ouvidos, insisti, forçando-o a repetir: quivi, quivi – ou seja, o hoje disseminado kiwi..
Ah, bom! E quanto custa, perguntei. O vendedor falou um valor em pesos – o euro ainda não era a moeda corrente de países, como a Espanha, que passaram a integrar a União Europeia alguns anos depois.
Achei muito caro. Voltei à carga: mas não é possível vender apenas dois ou três frutos, ao invés do pacote inteiro? Com um sonoro não como resposta, não me restou outra alternativa a não ser desistir de tocar, de conhecer, de saborear aquela fruta intrigante.
Chateado, porém conformado, tratei de aguardar o trem que me levaria à estação do museu do Prado. Caminhei uns 50 metros até chegar à plataforma onde o bólido pararia, depois de emergir da boca escura do túnel.
Levei um susto quando senti um toque em meu ombro esquerdo. Dei um passo à frente, virei o corpo, fazendo pose de quem pretende desafiar a surpresa. Medo tolo. Não havia beligerância por parte do autor, ou melhor, da autora do sutil cutuco. Fiquei um pouco encabulado.
Ela sorria. Deveria ter vinte e poucos anos, quem sabe um metro e sessenta de altura, olhos escuros, cabelos pretos. Vestia um casaco de lã marrom, listas brancas. Uma luva, também marrom, cobria a mão esquerda, enquanto a direita, sem luva, segurava um um embrulho pardo.
Tudo foi muito rápido – rápido demais.
Sempre sorrindo, ela estendeu a mão com o pacote em minha direção. E disse:
Para usted!
De forma mecânica, segurei o invólucro, olhei no seu interior, identifiquei quatro daqueles frutos estranhos que tanto aguçaram a minha curiosidade e que, por avareza, não havia comprado minutos antes.
Fiquei pasmo, sem palavras, olhava para os frutos, para a jovem.
Ela notou o meu embaraço; para abreviá-lo, ela recuou dois passos, acenou com a mão direita, despedindo-se.
Certamente a jovem presenciara o meu colóquio atrapalhado com o vendedor, percebera a minha curiosidade, talvez tenha imaginado que eu não fizera a compra por falta de dinheiro. E então resolveu me presentear com quatro kiwis.
Antes de embarcar no trem, ainda a vi na plataforma em frente a que eu estava. O valo em cuja superfície se assentam os trilhos nos separava. Acenei, sorri. Ela retribuiu.
Nunca mais a vi. Nunca mais a esqueci. Desde então, o kiwi entrou na minha vida. Para não sair.
De repente, vejo um sujeito postado atrás de um pequeno caixote, segurando em cada uma das mãos embalagens de plástico entrelaçado, onde estavam acondicionados diversos exemplares de uma espécie de cilindro com cerca de 3 a 4 centímetros de comprimento e uma circunferência de três centímetros, mais ou menos isso. Uma superfície que parecia áspera, aparentemente povoada de diminutos fios, pintada de um verde esmaecido, só contribuía para aumentar o mistério.
Não resisti. Aproximei-me do vendedor e expus com franqueza a minha ignorância. Afinal, o que era aquilo? Sem esboçar um sorriso de tolerância compreensiva, o rapaz respondeu com uma frase curta: é uma fruta. Completou dizendo o nome da respectiva, mas não entendi. Pareceu-me algo semelhante a quici, quili. Apurei os ouvidos, insisti, forçando-o a repetir: quivi, quivi – ou seja, o hoje disseminado kiwi..
Ah, bom! E quanto custa, perguntei. O vendedor falou um valor em pesos – o euro ainda não era a moeda corrente de países, como a Espanha, que passaram a integrar a União Europeia alguns anos depois.
Achei muito caro. Voltei à carga: mas não é possível vender apenas dois ou três frutos, ao invés do pacote inteiro? Com um sonoro não como resposta, não me restou outra alternativa a não ser desistir de tocar, de conhecer, de saborear aquela fruta intrigante.
Chateado, porém conformado, tratei de aguardar o trem que me levaria à estação do museu do Prado. Caminhei uns 50 metros até chegar à plataforma onde o bólido pararia, depois de emergir da boca escura do túnel.
Levei um susto quando senti um toque em meu ombro esquerdo. Dei um passo à frente, virei o corpo, fazendo pose de quem pretende desafiar a surpresa. Medo tolo. Não havia beligerância por parte do autor, ou melhor, da autora do sutil cutuco. Fiquei um pouco encabulado.
Ela sorria. Deveria ter vinte e poucos anos, quem sabe um metro e sessenta de altura, olhos escuros, cabelos pretos. Vestia um casaco de lã marrom, listas brancas. Uma luva, também marrom, cobria a mão esquerda, enquanto a direita, sem luva, segurava um um embrulho pardo.
Tudo foi muito rápido – rápido demais.
Sempre sorrindo, ela estendeu a mão com o pacote em minha direção. E disse:
Para usted!
De forma mecânica, segurei o invólucro, olhei no seu interior, identifiquei quatro daqueles frutos estranhos que tanto aguçaram a minha curiosidade e que, por avareza, não havia comprado minutos antes.
Fiquei pasmo, sem palavras, olhava para os frutos, para a jovem.
Ela notou o meu embaraço; para abreviá-lo, ela recuou dois passos, acenou com a mão direita, despedindo-se.
Certamente a jovem presenciara o meu colóquio atrapalhado com o vendedor, percebera a minha curiosidade, talvez tenha imaginado que eu não fizera a compra por falta de dinheiro. E então resolveu me presentear com quatro kiwis.
Antes de embarcar no trem, ainda a vi na plataforma em frente a que eu estava. O valo em cuja superfície se assentam os trilhos nos separava. Acenei, sorri. Ela retribuiu.
Nunca mais a vi. Nunca mais a esqueci. Desde então, o kiwi entrou na minha vida. Para não sair.
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