segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O (des) mentido


O desmentido tomou a todos de surpresa. Ninguém estava preparado para absorver o impacto da negação de certezas até então imutáveis, desde sempre dadas, incontestáveis. O desmentido não podia ser verdade (sic...), pois desferia um tiro mortal na própria verdade até então inabalável! O desmentido soava como um absurdo capaz de deixar o mais descrente prostrado. A partir dessa descoberta, tudo o mais passava a ser alvo da desconfiança. Os sintomas de desesperança se instalaram. A desorientação assumiu seu posto na atmosfera. Mesmo os mais descontraídos emitiam sinais de desconforto, de desassossego. A desilusão parecia contagiar indiscriminadamente, como uma espécie de vírus desassombrado.

Os sorrisos e a alegria desapareceram. Até as crianças davam mostras de desânimo, descartaram as brincadeiras. Os adultos já não se importavam em esconder seus desafetos, destratavam-se uns aos outros, desentendendo-se mais do que o habitual. Ninguém se preocupava em desfazer mal-entendidos. O destempero vinha à tona despudoradamente.

No princípio, alguns tentaram deslindar as causas do desmentido. Mas, após desesperadas reflexões, desistiram. No máximo, concluíram serem vítimas do desatino do destino. Bem diferente, aliás, do desenhado no imaginário dos otimistas mais destemidos. O futuro, na melhor das hipóteses, descambara morro abaixo.

Algo ficou evidente: todos estavam despreparados, seus sonhos foram desmontados, suas esperanças desativadas, suas existências desarrumadas. O despropósito de seus cotidianos fora desnudado. Suas convicções foram atravessadas pela espada do desdém.

Houve quem saísse correndo desabalado, tal como um desmemoriado, mas outros desabaram ao chão, desfalecidos pela inconformidade. Qualquer iniciativa revelava-se descabida. O descrédito em si e nos demais descortinava, mais cedo ou mais tarde, o desalento do espírito individual e coletivo. A desunião já podia ser desmascarada.

O desmentido, em última análise, tivera o efeito de uma explosão descomunal nas mentes e nos corações, cujo efeito como que desconectara desde desempregados até despudorados acumuladores de capital. Até então, o deslumbramento socioeconômico, o desenfreado avanço das tecnologias, as descobertas e inovações em todos os setores, despertavam a sensação do pleno domínio. A civilização só tinha um objetivo: desfrutar, assumindo seu desapreço desmedido com o contexto de vida no qual apenas estava inserida como uma parte do todo.

Nenhum desentranhar de consciências desativou ou desencorajou os desmandos desferidos pelo desbravamento civilizatório-tecnológico. A desintegração das mínimas condições de harmonia foi desdenhada. Chegava a ser desonroso não projetar mais desenvolvimento, não importando as conseqüências, as despesas impagáveis com o meio ambiente que se avolumavam por conta da devastação.

O desleixo com os despojos das ações humanas desfiguraram o mundo. Os desgovernos globais, despreparados e/ou desinteressados disfarçavam o desregramento com medidas simbólicas, paliativas no máximo. Os desembolsos designavam as legislações, nada despertava a desconstrução da terra, do céu, da água, da atmosfera, pois a ética tomara o caminho do desterro.

Fora do desempenho, tanto para indivíduos, quanto para instituições, para indústrias, tudo o mais não passava de desdouro. O consumo não concedia descontos. O desencaixe da ordem social era alvo de desprezo. Quem destoasse, estava despedido do convívio entre seus iguais, caia em desgraça, transformava-se em um desordeiro, um desajustado.

Dessa maneira, desindustrialização soava como uma desdita, uma desumanidade. A desertificação dos solos férteis criava cenários desoladores. O desmatamento só se desconjuntava nos discursos. A despoluição dos rios foi desleixada. A maioria permanecia desatenta, desinformada, ou até desejosa, à descarga de agrotóxicos na alimentação, não sentindo sequer um desconcerto ao desembalar ou desarrolhar remédios, medicamentos, crendo fielmente no desempenho da saúde enquanto produto. Nem mesmo as destemperanças climáticas, e suas desmedidas conseqüências, serviram como advertência.

O desencantamento final chegara ao ápice com as ações até então perpetradas. A desintoxicação já não era mais possível. A desintegração da existência descortinava-se. Para piorar, as inciativas alternativas logo passavam a incorporar o status quo e desintegravam-se. A vida estava destroçada. Destruída.

O desmentido, enfim, desfraldou a sentença: os homens não sobreviveriam ao desrespeito desnaturado à natureza.

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