sexta-feira, 6 de maio de 2011

Andanças (1): sapatinho de bebê cubano

Ah, as viagens! Nada melhor pode existir. Conhecer novos lugares, pessoas, culturas, hábitos. Apenas as viagens nos proporcionam situações inusitadas, surpreendentes. Para o bem e para o mal. De certa forma, quem viaja busca um pouco do inesperado. Afinal, ao deixar para trás os limites dos territórios conhecidos, perde também a pretensa sensação de controle. Quando estamos além das fronteiras da nossa rotina, sujeitamo-nos a sermos alvos, agentes de experiências, de vivências incomuns ao cotidiano de sempre. Ficamos à mercê do acaso, às vezes do ocaso, enquanto cumprimos eventuais roteiros pré-definidos, só para fazer de conta que estamos segurando as rédeas do destino. No fundo, ansiamos pela expectativa de sentir certo medo, aguardamos o receio do desconhecido, buscamos o imprevisível.

Ou seja, queremos o diferente, quem sabe para injetarmos algumas poções de adrenalina no nosso dia a dia. Talvez para sentirmo-nos um pouco mais vivos, para quebrar a melancolia de existências condicionadas, mesmo decoradas pela aura da felicidade até.

Além do mais, somos humanos, curiosos, insatisfeitos, desejosos de sempre conhecer mais, de sempre enfrentar desafios, aventuras, de colocarmo-nos à prova, ou apenas para podermos nos exibir diante dos outros, ou de nós mesmos.

E isso mesmo quando a viagem está relacionada às previsíveis férias do trabalho, “para recarregar as pilhas”, aos dias de veraneio em paragens nem tão distantes do lugar onde passamos a maior parte dos dias do ano, gastando horas em frente à televisão, ao monitor, no trânsito, em bares, restaurantes, cinemas, obedecendo cordialmente os ditames de uma vida programada para consumir.Não importa qual a razão, o motivo. A viagem sempre poderá nos oferecer o inusitado. Talvez como turistas, descompromissados garimpeiros de novos cenários, estejamos mais suscetíveis aos eventos que extrapolam o previsível.

Por isso tenho algumas historinhas, a começar por aquela registrada durante a minha primeira viagem internacional. Antes já estivera, a trabalho, no Uruguai. Mas quando, em janeiro de 1989, embarquei rumo à ilha de Cuba, fiz a minha verdadeira estréia, digamos, descompromissada, em terras estranhas. A escolha pela ilha não decorreu de um interesse ideológico de cultuar o então ativo Fidel Castro. É que, à época, eu namorava uma frenética militante de esquerda.

Episódio 1: sapatinho de bebê

Deixei rapidamente o salão do restaurante do hotel onde estava hospedado em Havana. Um prédio antigo, remanescente dos tempos pré-revolução. Sentia-me um pouco nauseado: além da atmosfera impregnada por um odor de mofo, a comida era horrível, à base de carne de porco insossa, sem qualquer preparo (temperos).

Tomei o elevador sozinho, sacolejei até o andar do meu apartamento. Entrei e fui direto ao banheiro, lavar o rosto. Recompus-me um pouco, dirigi-me à ampla janela que emoldurava a paisagem urbana da capital cubana, tendo ao fundo o verde do mar caribenho. Acendi um cigarro. Quase me afoguei com a fumaça ao perceber a porta abrindo.

Girei o corpo rapidamente, enquanto pensamentos aterrorizantes povoaram minha mente.Deparei-me com uma mulher expressando também certo espanto, talvez com a minha reação de visível pavor. Os trajes a denunciavam: era uma camareira do hotel, ao menos tudo indicava. Notei de imediato sua barriga proeminente, sem dúvida estava grávida. Deveria ter menos de 30 anos, morena, olhos escuros, uma típica cubana.

-Senhor, senhor, perdoe-me pela intromissão, disse a mulher em um espanhol palatável.

Relaxei um pouco, abri a guarda, esbocei um sorriso, percorri o quarto com o olhar, querendo indicar que estava tudo em ordem, que não precisava de seus préstimos. Ao abrir a boca para agradecer e dispensá-la, ela se aproximou. Quase sussurrando, perguntou se poderia pedir um grande favor, mas não esperou pela resposta.

Acariciando a barriga com a mão direita, continuou falando. Esperava dar a luz dentro de dois meses. Cabisbaixa, pediu-me para comprar, nas lojas onde só turistas podiam entrar, um par de sapatinhos, feitos de crochê, desses habitualmente utilizados por recém-nascidos. Fora desses estabelecimentos, explicou, não havia como conseguir, a não ser um produto confeccionado com um material semelhante ao utilizado em sacos de aniagem.
Segurando algumas moedas nas mãos, seu pedido mais pareceu um apelo desesperado.

Em nenhum momento cheguei a cogitar em negar-me a atendê-la. Admito ter ficado comovido, muito comovido.

Recusei o pagamento antecipado. Enquanto ela guardava as moedas no bolso do avental branco, ela sorriu. Parecia aliviada.

Combinamos, então, um encontro para o dia seguinte, logo após o almoço, no mesmo local. A mulher retirou-se, não sem antes agradecer várias vezes.

Assim que a porta se fechou, as forças ocultas da paranóia entraram em ação. Passei a elucubrar: afinal, não seria tudo parte de um esquema para me incriminar. De tão absurda, abandonei a tese sem muito esforço racional.

Sentado no sofá, olhando para as paredes do apartamento, comecei a fazer considerações sobre a crueza do episódio, o destemor singelo de uma mãe, a angústia, o sofrimento daquela mulher, cujo nome, aliás, eu não sabia. Como um desejo tão simples, porém com uma dimensão emocional infinita, não podia ser realizado? Como uma vontade de uma mãe trabalhadora era passível de restrições? Poderia aquela humilde mulher cubana, do início dos anos 90, ser rotulada como uma torpe consumidora capitalista?

Decidi não esperar mais um segundo, resolvi agir. Contei à minha companheira de viagem o ocorrido, pedi sua colaboração. Entre espantada e resignada, ela me explicou melhor as nuances dos sapatinhos de bebê. Afinal, nunca tivera familiaridade com as coisas relacionadas à maternidade.

Assim, cerca de uma hora após conversar com a camareira, lá estava eu rumando em direção a uma das lojinhas freeshop, implantadas em diferentes pontos estratégicos da ilha, uma rentável fonte de recursos para o Estado.

Destinadas rigorosamente apenas aos estrangeiros, restava aos nativos espiar, por entre as paredes de vidro dos pequenos antros do consumo incrustados em meio ao cotidiano de escassez, as maravilhas do capitalismo.

Cubano dentro desses ambientes, só se fosse para trabalhar, como balconista.
Em meio a equipamentos eletrônicos, perfumes, quinquilharias diversas (poucas ainda de origem chinesa), encontrei os sapatinhos. Comprei dois pares, um azul, outro predominantemente cinza.

Não me lembro de outros detalhes, como preço, origem. Só recordo da retirada apressada da loja, o caminhar célere pelas ruas, até chegar ao hotel. A sensação era de estar cometendo uma ilegalidade, um crime. Chegando ao apartamento, escondi “o produto” no fundo mala, afogando-o com camisas, calças, cuecas e meias.

Na manhã seguinte, acordei ansioso, feliz, cheio de orgulho, sentindo-me um grande benfeitor. Embora ainda vez por outra assaltado por uma pontinha de receio. Cenas com imagens de homens fardados, truculentos, revistando minha mala, enquanto a camareira, acorrentada, assistia a tudo impassível, rodavam com insistência na minha tela íntima.

As horas demoraram a passar. Almocei sem tocar nos pratos quentes, só comi a entrada, pão e manteiga. Livrei-me do porco sem gosto.

Por volta de 13h já estava no apartamento, fumando, olhando pela janela.

Então bateram à porta. Estranhei, pois da vez anterior a camareira utilizara a chave mestra. Mas fui abrir. Para meu alívio, era ela, sozinha.

Com um sorriso um tanto encabulado, a futura mamãe agradeceu o convite para entrar. Fui até a mala, retirei o tesouro, devidamente embalado para presente, coloquei em suas mãos, fazendo sinais para ela desembrulhar.
Nunca mais vou esquecer aquele olhar, aquela expressão facial.

A camareira ficou profundamente emocionada ao tocar os sapatinhos. Um breve soluço antecedeu a queda de duas lágrimas pela face morena.

Por alguns instantes, com vigor, ela apertou os sapatinhos junto ao peito. A seguir, tratou de guardá-los, enfiando-os embaixo do avental, posicionando-os no lado direito da barriga. Tirou um elástico do bolso e envolveu o tesouro, fazendo-o integrar-se à barriga.

Agradeceu, agradeceu, tentou novamente pagar, recusei com delicadeza. Abraçamo-nos por um instante, desejei-lhe sorte, ela se retirou. Novamente esqueci-me de perguntar o seu nome.

Acendi outro cigarro. Voltei à janela. Vislumbrei o mar esverdeado. A estonteante beleza natural podia ser apreciada sem restrições por todos, sem distinção. Inclusive pelos nascidos na ilha.

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