Minutos após desembarcar no aeroporto de Lima, capital peruana, depois de um voo desde Cusco, fui tomado por uma intensa irritação, uma justificativa para fumar um pouco mais do que o habitual. O combinado com a agente de viagens, que dias antes me vendera um pacote para Machu Pichu, não estava acontecendo. Ou seja, não havia nem sinal do carro que deveria me apanhar e me levar até o hotel.
Enfurecido, fui até um telefone público e contatei com a agente, que conhecera no saguão do hotel. Expressando-me com o típico portunhol, vociferei minha inconformidade. A mulher - deveria ter cerca de 35 anos e alguns quilos a mais - disse-me para ficar tranqüilo, em poucos minutos o carro chegaria.
Dito e feito. Não se passaram 15 minutos e um sedan preto Toyota estacionou junto à área de desembarque. Ao volante, a mulher, ela mesmo, sorridente. Pedindo desculpas pelo transtorno, colocou minha bagagem no porta-malas do carro e convidou-me para embarcar.
Logo após sairmos do perímetro do aeroporto, perguntei à agente – não lembro seu nome – onde seria possível saborear uma típica comida peruana. A mulher me questionou se esse era o meu desejo realmente. Confirmei. Ela não falou mais nada. Seguimos.
Minutos depois, o Toyota ingressou em uma área quase desabitada. A mulher não falava nada. Eu, menos ainda. Talvez o mal-estar do desencontro ainda estivesse surtindo seus efeitos. Deduzi, porém, que ela estava me levando para algum restaurante.
O problema é que cada vez mais ingressávamos em uma zona deserta. Em ambos os lados da estrada asfaltada, dunas de pedras, uma paisagem planetária.
Os motores da paranóia ligaram automaticamente em meu cérebro. Comecei a ficar preocupado. Mas afinal, onde estávamos indo. Para fora do perímetro de Lima? Tentei demonstrar tranqüilidade, puxei assunto, a mulher respondeu monossilabicamente.
Enfim, passei a cogitar seriamente a hipótese de seqüestro. A mulher ficou enraivecida com a minha cobrança e resolveu se vingar, conjecturei. Talvez me entregando para o então ativo movimento terrorista local. Ou quem sabe eu estava prestes a ser vítima de um singelo latrocínio, sem a mínima chance de deixar rastros.
De repente, o cenário foi se alterando, ao poucos algumas casas emolduraram a paisagem. Logo percebi: não eram residências típicas da periferia de uma capital de um país latino-americano. Ao contrário, dispostas em grandes terrenos, as construções revelavam o bom poder aquisitivo de seus habitantes.
Até aí nada de mais. Afinal, não é tão incomum sequestradores investirem em esconderijos para abrigar suas vítimas.
Enquanto a paranóia corria solta em minha cabeça, o carro estacionou em frente a uma casa com um frondoso jardim, cercada de grades altas.
-Chegamos, disse a agente, desligando o veículo. Bem, você queria experimentar uma comida típica peruana, não é?
-Sim, sim, respondi.
Então estou te convidando para almoçar com a minha família.
Por um momento avaliei as possibilidades. Percorri com olhos argutos as redondezas, tentei verificar o interior da residência. Decididamente, eu podia relaxar.
Nunca, jamais, poderia imaginar o que me esperava.
Logo ao ingressar na habitação, a agente me apresentou ao seu marido, um simpático cabelos grisalhos, que me recepcionou com um largo sorriso na imensa sala onde degustava uma bebida.
Seguindo a minha a agente, atravessei a enorme casa, indo parar nos fundos, onde a água verde de uma piscina resplandecia ao sol do meio-dia peruano. Em volta do quadrilátero aquoso, um piso de pedras de um basalto rajado acomodava três ou quatro mesas, abrigadas sob um guarda-sol.
Duas jovens de biquíni, bem torneadas e bonitas, fizeram uma nova recepção. Eram as filhas da agente, cujo marido tinha ocupado até bem pouco tempo o cargo de ministro de Estado.
Eu estava extasiado. Não pelo lugar, pela comodidade, pelo conforto, e sim pela recepção, pelo carinho e simpatia dos peruanos.
Gastamos alguns minutos jogando conversa fora, dei a minha ficha, falei do Brasil, essas coisas.
A alguns metros das mesas, onde conversávamos animadamente, uma espécie de churrasqueira fumegava. Mas o cheiro não era de carne. Uma senhora mantinha guarda, examinando a cada instante o andamento da operação.
Quando ela se dirigiu às mesas, com uma travessa ainda exalando vapores, houve um ooohhh e palmas dos anfitriões.
O imenso prato continha enormes espigas de milho, o choclo, de suculentos grãos de um amarelo intenso. Um autêntico prato típico, seguido de outros, que não lembro bem. O choclo, porém, ficou gravado.
Após o lauto almoço, a agente apresentou-me a um senhor dos seus 50 anos. Era outro de seus empregados. Explicou-me: determinara a ele a tarefa de sair comigo para mostrar-me a capital. Só com um detalhe: como ela precisaria do Toyota, iríamos fazer o tour de fusca. E eu ia me importar?
Despedimo-nos, agradeci mil vezes. A agente me deu seu cartão – lamento até hoje não ter guardado com o devido cuidado. O marido me cumprimentou fraternalmente, as filhas também me afagaram.
Terminava uma experiência maravilhosa de convívio e iniciava outra. O senhor encarregado de me mostrar as belezas de Lima era simplesmente admirável. Um sujeito com pouca instrução, que transpirava bondade, gentileza, generosidade.
Durante o tempo em que percorremos as ruas de Lima,visitando algumas atrações da cidade, em mais ou menos quatro horas, consolidamos uma relação aparentemente iniciada há anos. Ele era incrível, uma pessoa, como se diz atualmente, do bem – mas não guardei o seu nome.
Aquele homem, já com alguns cabelos brancos, resumia a essência do caráter e do espírito do povo peruano, se é possível generalizar.
Conforme o combinado, no outro dia ele foi me buscar no hotel, pois me levaria até o aeroporto. Sua filha adolescente o acompanhava.
A despedida foi fantástica. Ele desabou a chorar como uma criança, enquanto me abraçava.
Por um momento, contudo, se recompôs, colocou a mão no bolso do casaco, e tirou um pequeno embrulho, entregando-me. Pediu desculpas por não poder me presentear com algo de mais valor. Mas garantiu: era de coração.
Rasquei o papel e vislumbrei um pratinho, do tamanho de um pires, decorado com dois pássaros azuis.
Abracei aquele homem simples, de uma intensidade afetiva difícil de encontrar, e igualmente não consegui conter a emoção.
Nunca mais reencontrei os meus amigos peruanos. No entanto, sempre me lembro deles com um grande carinho.
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