Depois de longas horas de viagem em um trem que tomara em Bari, após desembarcar de um navio que me trouxera da Grécia, dividindo uma cabine com duas matronas brasileiras,(queridas, brindaram-me com uma carteira de cigarros Hollywood) cheguei Milão. Tinha um objetivo definido, do qual não me afastei, apesar da tentação de ao menos conhecer o Duomo milanês: chegar a Mônaco para, no dia seguinte, um domingo, assistir a uma corrida de Fórmula 1, ver Airton Senna em ação.
Portanto, não perdi tempo: desci em uma plataforma, procurei informações, embarquei em outro trem. Meia hora após, apreciando a paisagem fugidia, passei a considerar a possibilidade de alguma coisa estar errada.
A elucubração tinha como base a seguinte premissa: o principado de Mônaco fica no litoral. Porém, o trem só escalava montanhas. Subia, subia.
Fiquei preocupado. Tratei de esclarecer a dúvida, conversei com um casal. Em um italiano palatável, explicaram-me: aquele comboio se dirigia a Bolzano e, depois, à Áustria, ou seja, o oposto do lugar onde os motores da fórmula 1 roncariam.
Como dizem todos, fazer o quê? Por sugestão do solícito casal, desembarquei em uma pequena estação, esperei outro trem, retornei à Milão, certifiquei-me mil vezes do destino, e ingressei no veículo cujo destino final seria o principado.
A viatura, percebi logo no início do trajeto, estava sob o controle de ferroviários que falavam francês. Inclusive ocorreu algo inusitado:
Compartilhava a cabine com quatro ou cinco jovens barulhentos, todos norte-americanos. Quando o fiscal veio fazer a conferência dos bilhetes, perguntou a nacionalidade dos passageiros. Ao saber a minha nacionalidade, cobriu-me de mesuras, foi extremamente gentil, fez referência ao maravilhoso país onde eu nascera. Já os ianques foram tratados grosseiramente.
Mônaco fervilhava naquele início de noite de sábado, véspera da corrida mais tradicional do circuito da fórmula 1. Gente de toda a Europa, predominando os tifosi italianos, os fanáticos torcedores da Ferrari.
Primeira providência: encontrar um hotel, um lugar enfim para me hospedar. Foi algo quase tão impossível como, nos dias atuais, Felipe Massa ser campeão. Os estabelecimentos, via de regra, estavam lotados. Depois de muito perambular e ouvir não e não – deixara a mala em um guarda-bagagem na estação ferroviária - encontrei uma vaga disponível em um hotel razoável. O preço equivalia a 100 dólares.
Prevaleceu a obsessão de poupar,tomei uma decisão: ficaria acordado a noite toda. Afinal, considerei, estava em Mônaco, cidade dos cassinos, de uma intensa vida noturna, em véspera de grande prêmio. Não seria difícil ocupar e passar o tempo.
Ledo engano. Uma atitude absurda. Talvez tenha sido uma das noites mais árduas da minha vida, cansativa, com entradas e saídas regulares em bares, para tomar café ou, no máximo, um refrigerante; com caminhadas por calçadas desertas da cidade. É claro: nem cheguei a cogitar uma entradinha em um cassino, talvez para arriscar a sorte, nos números ou, quem sabe, uma companhia agradável. Seria uma fortuna!
Não agüentava mais o cheiro de café e cigarro quando começou o amanhecer. Percorri, então, as ruas onde se desenvolve o circuito no qual, algumas horas depois, intérpretes pilotos colocariam suas existências sob risco em busca da vitória gloriosa.
Quando o sol se afirmou por entre as luxuosas embarcações ancoradas nos cais de Mônaco, encerrei a maratona noturna. Estava demolido, arrasado. Ao menos nada de pior me acontecera, nunca me senti ameaçado, a sensação de segurança foi plena. Uma noite circulando, mesmo no pequeno paraíso dos ricaços, tomando café, fumando, foi demais.
Abatido, enquanto procurava um lugar para comer um sanduiche ou algo parecido, fui acometido por um doloroso arrependimento. Por que não ficara no hotel, por que eu tinha surtos de avareza, com consequentes sacrifícios inúteis?
Apesar de tudo, não aprendi a lição. Enquanto a manhã avançava, o frêmito aumentava por conta da corrida. Ao mesmo tempo, crescia em mim uma resistência em pagar 150 dólares pelo ingresso em uma das arquibancadas montadas para receber o público.
Examinei as possibilidades. Percebi vários pontos ao longo do trajeto onde seria perfeitamente possível olhar os bólidos passando. Vi alguns sujeitos se colocando nesses lugares estratégicos. Se eles podem, por que eu não posso, perguntei a mim mesmo.
Achando-me esperto, instalei-me próximo a uma curva, em uma escadaria. Duas horas antes de a corrida iniciar, lá estava eu, animado, contando em pensamento os dólares economizados desde a noite anterior.
De repente, a polícia. Sem muita conversa, retiraram a mim e a outras três pessoas que se refestelavam nos degraus, só esperando os carros passarem.
Fiz mais duas ou três tentativas, mas a repressão se repetiu. Resumindo, não vi nem um lampejo do vermelho e branco da Mac Laren de Senna.
Como consolo, ao menos o barulho ensurdecedor das potentes máquinas, em plena atividade em uma corrida oficial, eu ouvi.
No retorno ao Brasil, se fosse necessário contar a domingueira de Fórmula 1, não seria difícil dourar a pílula. Afinal, nenhum conhecido testemunhou meus desatinos.
Para todos os efeitos, como comprovavam algumas fotos, estivera em Mônaco em um dia de corrida de Fórmula 1.
De qualquer maneira, não esperei nem ao menos o fim da competição para saber quem vencera. Amuado, mais dolorido do que fiquei na noite passada no navio, onde fora obrigado a dormir no chão (comprara uma passagem das mais baratas, sem direito a camarote ou ao menos a uma cadeira), muito cansado, decidi ir embora.
Assim, em uma tarde de domingo muito agitada na terra onde já reinara a princesa Grace, arrastei a minha mala para dentro de uma cabine de trem, rumo a Milão, novamente.
Ao contrário da vinda, o retorno foi muito diferente. No mínimo.
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