segunda-feira, 30 de maio de 2011

Andanças III: tragédia grega

Lá estava eu no dito berço da civilização ocidental. Decepcionado com a escassez de monumentos e obras dos memoráveis tempos dos descendentes de Platão, entristecido ao me deparar com alguns pedaços de colunas e algumas cabeças de deuses dos (restos de) acervos dos museus locais, um pouco chateado com o nariz empinado dos nativos, misturei-me a uma multidão formada por pessoas de todas as partes do mundo. O sol de primavera era suficiente apenas para deixar os turistas animados na movimentada praça em frente ao parlamento da Grécia, em Atenas, na forma e no conteúdo muito distante, é natural, do ideal democrático que ali mesmo floresceu.

Caminhava sem compromisso, olhando a casa dos políticos gregos, apreciando o piso de cerâmica sem, porém, deixar de prestar atenção à minha volta. Viajante solitário, na ocasião, procurava ter mais cuidado para não viver qualquer situação desagradável. Já percebera: alguém sozinho em paragens estrangeiras sempre é mais visado, ao menos por policiais e seguranças, especialmente em aeroportos e terminais ferroviários.

Pois de repente notei a aproximação de um sujeito. Ele falava uma mistura de idiomas, talvez com uma prevalência do inglês. De início, surpreso, imaginei: ele está conversando com alguém próximo a mim. No entanto, não havia ninguém tão perto. O negócio era comigo mesmo.

Nunca mais esqueci as feições, os gestos, a maneira como aquele homem tentava dialogar comigo. Deveria ter entre 40 e 50 anos. Cabelos prateados (é, é isso mesmo), com talvez 1m75 de altura, relativamente forte, um rosto rosado de onde emergia um sorriso simpático acima de qualquer suspeita.

Tentei ser educado, sem deixa de demonstrar não ter qualquer interesse em levar adiante a conversa. O sujeito, porém, insistia. Começou fazendo referência ao clima agradável, à manhã ensolarada. Depois quis saber a minha nacionalidade.

Soltou uma exclamação quando disse ser brasileiro. Pareceu-me ter ficado mais à vontade, mais descontraído, enquanto agregava palavras em espanhol na sua verborragia.

A partir daí, iniciou-se uma verdadeira batalha. De um lado, aquela pessoa que exalava simpatia, querendo me convencer a me levar para um lugar que eu não conseguia entender bem do que se tratava. Eu, resistindo, agradecendo.

De nada adiantou. Quando me dei conta, estava caminhado ao lado do sujeito, cuja boca não se fechava nunca, entremeando sorrisos e frases incompreensíveis.

Às vezes, eu fazia menção de voltar atrás, recuava.Porém, ele retomava a carga. Em meio à profusão de frases em inglês, espanhol, e dialetos desconhecidos, decifrei algumas palavras: bar, brasileira. Sim, brasileira, no feminino.

Com mesuras, o “anfitrião” seguia abrindo caminho entre a multidão, levando-me para o desconhecido.

Confesso: estava consciente do risco de continuar ao lado do sujeito, indo não sabia para onde.

Em última análise, bastava tomar uma postura intransigente, definitiva: não, não quero seguir, ponto final.

Mas, mesmo tendo noção do perigo, continuei seguindo o grego. Talvez por um enfeitiçado por um efeito dionisíaco.

Após alguns minutos, chegamos a uma espécie de galeria, com lojas enfileiradas uma ao lado da outra, divididas por um corredor pavimentado. Logo percebi: o fim da jornada chegara.

Em um impulso, dei dois ou três passos para trás. O grego, contudo, não estava disposto a perder a presa.

Com delicadeza, mas resoluto, abraçou-me como um pai abraça um filho desorientado.

Então desisti: seja o que Deus, ou melhor, os Deuses quiserem.

Avançamos galeria adentro. Paramos em frente à terceira loja.

Diferentemente das outras, não havia vitrine, produtos expostos. Apenas uma porta de madeira maciça, talvez arrancada da floresta amazônica. Ao seu lado, um aparelho de ar condicionado resfolegava.

Entramos. Minhas suspeitas se confirmaram. Tratava-se de um bar de encontros, um pequeno bordel, nada muito diferente dos similares no Brasil. Penumbra, música, fumaça de cigarro, mesinhas, mulheres.

O grego, cujas intenções agora se revelavam por inteiro, chamou uma das mulheres espalhadas pelo ambiente, perdidas na penumbra. Não recordo o nome dela. Embora fosse especial, como o meu anfitrião insistia em repetir.

Uma brasileira! Por isso o grego insistiu tanto comigo. Imaginou, na sua experiência de cafetão o inevitável padrão: um macho brasileiro naturalmente gostaria de transar com uma compatriota sob os olhares dos deuses do monte Olimpo.

A mulher, baixa, aparentando uns 30 anos, foi chegando perto do compatriota, a esta altura completamente apavorado. Cumprimentou-me com um sorriso mecânico, disse o seu nome, falou ter nascido mineira, convidou-me para sentar em uma mesa.

Por medo ou por interferência divina, sai da letargia, reagi. Mas com muita parcimônia, com cautela, não revelando a inquietude íntima. Afinal, estava em um terreno minado. Delicadamente manifestei o desejo de ficar junto ao balcão, atrás do qual se movimentava um mal encarado barman.

Analisei rapidamente a situação. Transar com a conterrânea, nem pensar. Tudo poderia acontecer no quarto, ainda mais que eu era uma espécie de homem-bomba-otário. Só que ao invés de explosivos, carregava, junto ao corpo, mais precisamente nos flancos e na barriga, dois bolsos de pano presos a elásticos, onde estavam acondicionados cheques de viagem, dois mil dólares em dinheiro, passaporte, carnê de passagens de trem, bilhete do avião.

Uma vítima perfeita.

Senti o suor brotar da testa. Precisava fazer alguma coisa. Perguntei à brasileira se ela gostaria de beber algo. Ao mesmo tempo, pedi uma bebida, um suco de frutas sem álcool, para estupefação do barman, que já servira um drink “não-sei-do-quê” à mulher.

Tomei minha porção em dois ou três goles. Ressalte-se: fiquei atento ao preparo, cuidando para ver se o mal-encarado não colocava algum pozinho no copo.

A melhor estratégia seria deixar rapidamente o local. A mulher já se insinuava, acariciando o meu braço, fazendo caras e bocas. Recusei com delicadeza os afagos argumentando estar com muita pressa, infelizmente não havia como ficar.

Pedi a conta. Foi uma fortuna. De qualquer modo, um gasto calculado: vão-se os anéis, ficam os dedos.

E então chegou um momento, digamos, de adrenalina a mil. Despedi-me da mulher. O cafetão não estava mais na área, provavelmente voltara à praça, em busca de novos incautos. Meu medo era encontrar a porta trancada. Mas ela abriu.

Deixei a galeria em um átimo, ganhei a rua, o sol continuava brilhando. Meu coração queria sair nela boca, as pernas começaram a tremer.

Sem deixar de, vez por outra, olhar para trás, caminhei como um maratonista digno das antigas olimpíadas. Boca seca, cabeça em frangalhos. Não parei enquanto não cheguei ao hall do hotel onde estava hospedado.

Uma jovem, dos seus 20 e poucos anos, sentada em uma poltrona, lendo um jornal, notou minha entrada esbaforida. Apesar da circunstância, ainda tive forças para perceber o quanto ela era linda, uma deusa grega. Pronta para me sacrificar no altar do amor alertou-me a minha confusa mente.

Com a sutileza da sedução, ela me olhou de forma penetrante. Desviei o olhar, fixei-me nos botões do elevador. Quando a porta abriu, entrei acelerado.

Nenhuma Diana seria capaz, àquela altura, de convencer-me sobre as delícias das alcovas do Olimpo.

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