Na perspectiva da definição do coletivo ideológico-partidário que emergirá da vontade popular para implementar as políticas públicas requeridas pelo conjunto da sociedade nacional, um olhar comprometido com os processos participativos implícita uma releitura da ideação da inclusão social que contemple a pluralidade virtuosa das aspirações comunitárias.
Uma governança assentada nos princípios da solidariedade requer a transversalidade capaz de qualificar um protagonismo ativo, que estimule a singularidade das colocações emergidas nas dinâmicas regionalizadas e nos foros de maior territorialidade.
Potencializar e profundizar o viés republicano implica em repaginar a exclusão e fixar novas bases para a emancipação da cidadania, em um cenário de prevalência da lógica participativa.
Nesse sentido, um eixo de desenvolvimento sustentável, que contemple um multiculturalismo eco-dinâmico, encaminhará um fazer orgânico, capaz de estimular a tensão do contraditório subjacente ao respeito à diversidade, inclusive na microconjuntura.
A legitimação assentada no eixo do construtivismo integrador de todos os campos constitutivos da individuação, insere-se em uma vertente da ecologia econômica de conceitos reagentes às matizes que emolduram um fazer com a contemporaneidade requerida.
Portanto, a nova concertação social preconizada supõe a superação da conflitividade eventualmente inscrita nas pautas e agendas dos atores sociais, emoldurando a relacionalidade a partir de possibilidades poéticas, dos primaciais momentos de contação de histórias na tenra idade, à consubstanciação da prática de gestões macroproducentes para coesionar uma governança com protagonismo, a única via indutora para as políticas públicas.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Carta à dona Maria

Minha querida dona Maria, veja só do que escapaste. Como minha mãe, algumas vezes utilizaste o expediente da palmada na bunda, nunca na cabeça ou em outras partes do corpo, como uma maneira de dar a mim, seu filho, uma noção exata do errado e do certo (é, nesse tempo ainda se fazia a distinção), de estabelecer disciplina. Se fosse hoje, minha querida mãe, estarias correndo o risco de seres presa, caso eu, ou um vizinho, a denunciasse.
Minha querida dona Maria, esteja onde estiveres, apenas queria, mais uma vez, proclamar, alto e bom som, o quanto eu sou grato pelas palmadas que recebi. Da senhora e aquela única, e inesquecível, do meu estimado pai – por eu tê-la desrespeitado com ofensas, em um acesso de raiva.
Muito obrigado mesmo! Pois elas, as palmadas, como parte integrante do processo de educação e formação que a senhora em especial me propiciou, foram fundamentais para a estruturação do melhor da minha personalidade., da minha identidade como cidadão, da minha postura no contexto social.
Associadas, ou como última instância, do diálogo e do discurso didático formativo familiar, as palmadas serviram como alerta, como sinalização, como o apelo mais candente para o estabelecimento de limites, para o reconhecimento do direito dos outros, dos deveres e das responsabilidades inerentes à prática existencial cotidiana.
Sabe mãe, nem sei se vale a pena contar para a turma dos “direitos humanos”, que não se tratava de violência, de agressão, de humilhação. Não, suas palmadas eram palmadas de mãe, dosadas pelo bom senso infinito do carinho materno, equilibradas pelo sentido educacional subjacente ao afeto autêntico. A força de suas palmadas, ou da perspectiva delas, estava assentada nas variáveis que alicerçam o amor verdadeiro, como respeito, honestidade, sinceridade, solidariedade.
Elas doíam um pouco, é claro. Mais tarde, porém, ao tornar-me adulto, ao apurar a minha capacidade de reflexão e de elaboração, percebi o quanto elas foram suaves, mas firmes o suficiente para surtir o efeito positivo esperado.
Naturalmente, minha querida mãe, como a senhora bem o sabe, tive muitos percalços ao longo de minha trajetória. Enveredei por caminhos extremamente tortuosos e compus uma sinfonia de vida com notas um tanto quanto dissonantes.
Apesar de tudo, porém, sempre consegui preservar, no mais recôndito do meu âmago, algumas reservas de valores, de princípios, de fé, sempre suficientes para reerguerem-me, superar os mecanismos autodestrutivos, enfrentar as vicissitudes externas e seguir em frente, crescendo como pessoa ao ponto de hoje considerar-me um vencedor, mais do que um sobrevivente.
E as palmadas, dona Maria, fizeram a sua parte. Muitas vezes, aliás, elas nem eram necessárias. Como daquela vez em que eu, radiante, cheguei em casa com muitos carrinhos. Não sei se a senhora lembra. Foi assim: eu pedi dinheiro para comprar os tais carrinhos, espécies de miniaturas, bem pequenos; alguns eram branquinhos, com uma cruz vermelha no capô, as ambulâncias; outros eram “carros de passeio”, outros, caminhões com carroceria aberta.
A senhora me deu o dinheiro e eu, e mais um amiguinho, fomos até um bazar, de propriedade de um sujeito que era deficiente físico. Chegando lá, por conta das dificuldades do dono do estabelecimento, que vivia em uma cadeira de rodas, bastou um átimo de sua distração para eu e meu amiguinho enchermos os bolsos de carrinhos. E pagarmos apenas alguns.
Ao chegar em casa, vendo aquela quantidade de carrinhos, dona Maria estranhou, pois não imaginava que o dinheiro que ela me dera fosse suficiente para comprar tantas unidades. Inquiriu-me e eu confessei a artimanha.
Pois bem. Ela fez o seguinte: depois de um longo discurso sobre a importância de “não lograr os outros”, ela sentenciou: meu filho, você vai voltar na loja, e dizer ao dono que se enganou, que pegou carrinhos a mais. Eu vou ficar aqui na esquina, te olhando. Se não fizeres isso, já sabes...
Sim...eu já sabia. Com os meus seis, sete anos mais ou menos, percebi que fizera algo muito errado e que as palmadas estavam à espreita. Bastava um deslize. Assim, submeti-me à “vergonhosa” situação, devolvi os carrinhos, pedi desculpas pelo engano. Escapei das palmadas e nunca mais esqueci da lição.
Sabe dona Maria, esse é apenas um dos episódios marcantes da nossa convivência. Não especificamente pelas palmadas, mas por todas as nuances relativas à educação e à formação que a senhora e o meu pai transmitiram a mim.
É engraçado, a senhora mal sabia assinar o nome. Mas foi a mãe literalmente obsessiva por fazer o filho estudar, a mãe do diálogo, das conversas, dos conselhos, dos valores. E das eventuais palmadas.
Hoje acho que a senhora seria queimada em uma fogueira.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Dia Internacional da Mulher: nada mudou...na passarela
Pois é, neste dia 8 de março do ano da graça de 2010 novamente algumas parcelas esclarecidas da sociedade e do poder instituído em todo o mundo “comemoraram” o Dia Internacional da Mulher. Como invariavelmente ocorre nessa data, a par das festividades e eventos, pululam pesquisas a respeito dos escassos avanços conquistados pelo gênero feminino em diferentes setores. Mas, tirando a hipocrisia, e a inconsciência, tudo continua muito desigual, a começar pela paridade em termos salariais e participação da mulher em postos de comando na iniciativa privada e na política. Sem falar que tudo continua muito igual no que diz respeito à mulher continuar sendo saco de pancada, vítima da violência masculina.
Novas medidas são anunciadas, programas, estratégias, como na União Europeia, para amenizar a discriminação, principalmente por ser um fato que emperra o crescimento econômico ( ao fim e ao cabo, o que realmente interessa).
Como a evolução efetiva é ridícula, cantam-se loas às conquistas já conquistadas, como na área dos direitos políticos e civis, ao menos se não nos referirmos aos países do mundo árabe, judeus ortodoxos e aos povos de países africanos.
Mas circunscrevendo a questão apenas ao mundo ocidental, e a outros países “domesticados” pela cultura da civilização cristã, o fato é que a mulher continua sendo, ela própria, o elemento fundador da desigualdade entre gêneros.
Como isso não vai mudar, tudo continuará como sempre.
Quero dizer simplesmente que, enquanto houver uma única mulher que se submeta a subir em uma passarela, a disputar um concurso de miss, de mais bela de qualquer coisa ou lugar, de se sujeitar a ser um objeto a ser apreciado-consumido, não tem como atacar o mal pela raiz, extirpando-o.
Naturalmente, a questão da passarela está posta como uma referência simbólica. As variáveis estão aí incluídas, como as modelos e todas as formas que fazem e se utilizam da mulher como mera mercadoria.
Também entra nesse contexto a mulher prostituta, que vende o seu corpo para saciar sexualmente o homem. Nesse sentido, é incrível que grupos ideológicos autodenominados progressistas estimulem inclusive a organização das mulheres-trabalhadoras-que-vendem-o-seu-corpo, no sentido de defenderem os seus direitos.
Por aí se percebe a dimensão e a complexidade da questão de gênero. Estamos falando nada mais nada menos daquela que é denominada pela sociedade machista como a mais antiga profissão do mundo. Mas se ao menos algumas formas de submissão, de exploração e escravidão fossem combatidas, aí sim se poderia falar em avanços.
A beleza é a embalagem da mulher-objeto. Não há concurso de beleza inocente. Todos eles submetem à mulher, seja ela de que idade for, à condição de produto, que é exposto, analisado, aferido, dimensionado, cobiçado, desejado. E rentável. Pois afinal sempre tem dinheiro na parada, sob as mais diferentes formas – patrocínios, contratos, etc. Talvez até um pretendente endinheirado.
As mulheres compactuam. Pois vêem na conquista uma possibilidade de fazerem sucesso, de se tornarem atrizes, modelos, garotas-propagandas, atividades que lhes renderão muitas vezes mais o que ganhariam exercendo uma profissão, digamos, “comum”, mesmo aquelas que dependem de formação superior. Sem falar que passarão, em caso de destaque, a ter uma inserção profissional e social equivalente ou superior às posições de comando, de poder, escassamente ocupadas por congêneres, seja no mercado de trabalho, na política, enfim.
Como pedir às mulheres para abolirem essa oportunidade em uma sociedade de consumo e de exposição desenfreadas do seu rol de expectativas? Vencer, chegar lá, fama, idolatria, tudo isso estimulado e impulsionado pela indústria simbólica, a mídia, sempre necessitada de renovar o seu cartel de ídolos para alimentar os sonhos e as frustrações da massa.
É muito dinheiro. É jogo pesado. Para profissionais. Machos. As mulheres, significativa parcela delas ao menos, sabem que são peça-chave nesse processo. E fazem o jogo, aproveitando-se das sobras.
Portanto...sem chances. Durante muitos e muitos anos ainda teremos o Dia Internacional da Mulher, quando a Igreja Católica virá a público clamar por mais igualdade, pelos direitos das oprimidas e violentadas, enquanto mantém a proibição fatídica: mulher não pode ordenar os sacramentos. Mas por quê, Zebedeu? Mulher e homem não são iguais, a mesma coisa aos olhos de Deus? Então como podem os seus representantes máximos manter tal discriminação? Seria para evitar a tentação no âmbito interno? Ora, convenhamos, padre quando quer fornicar nem precisa de mulher.
Poder não se compartilha, poder não se divide. Não se pode colocar em risco uma formatação societária milenar, nos primórdios ungida pela força. Ou seja, como um dos pilares do processo civilizatório, a Igreja precisa dar o exemplo.
Na verdade, o que se obteve até agora é acessório, em termos de igualdade de gênero. O fundamental, o binômio básico, foi deixado de lado, tanto pelo tecido social quanto pelas mulheres: dignidade e respeito próprios. De uma maneira irrestrita, ampla.
Pior para a ínfima minoria de mulheres que decidiram quebrar as regras, não participar do esquema. Continuarão sendo a exceção que confirma a regra.
Algo é certo: como sempre haverá mulheres – plenamente apoiadas pelos homens – que não vão abrir mão de sua grande arma, a beleza (e tudo o mais que daí decorre e está implícito), podemos ficar tranqüilos até o próximo concurso, oopss, até a próxima comemoração do Dia Internacional das Mulheres.
Novas medidas são anunciadas, programas, estratégias, como na União Europeia, para amenizar a discriminação, principalmente por ser um fato que emperra o crescimento econômico ( ao fim e ao cabo, o que realmente interessa).
Como a evolução efetiva é ridícula, cantam-se loas às conquistas já conquistadas, como na área dos direitos políticos e civis, ao menos se não nos referirmos aos países do mundo árabe, judeus ortodoxos e aos povos de países africanos.
Mas circunscrevendo a questão apenas ao mundo ocidental, e a outros países “domesticados” pela cultura da civilização cristã, o fato é que a mulher continua sendo, ela própria, o elemento fundador da desigualdade entre gêneros.
Como isso não vai mudar, tudo continuará como sempre.
Quero dizer simplesmente que, enquanto houver uma única mulher que se submeta a subir em uma passarela, a disputar um concurso de miss, de mais bela de qualquer coisa ou lugar, de se sujeitar a ser um objeto a ser apreciado-consumido, não tem como atacar o mal pela raiz, extirpando-o.
Naturalmente, a questão da passarela está posta como uma referência simbólica. As variáveis estão aí incluídas, como as modelos e todas as formas que fazem e se utilizam da mulher como mera mercadoria.
Também entra nesse contexto a mulher prostituta, que vende o seu corpo para saciar sexualmente o homem. Nesse sentido, é incrível que grupos ideológicos autodenominados progressistas estimulem inclusive a organização das mulheres-trabalhadoras-que-vendem-o-seu-corpo, no sentido de defenderem os seus direitos.
Por aí se percebe a dimensão e a complexidade da questão de gênero. Estamos falando nada mais nada menos daquela que é denominada pela sociedade machista como a mais antiga profissão do mundo. Mas se ao menos algumas formas de submissão, de exploração e escravidão fossem combatidas, aí sim se poderia falar em avanços.
A beleza é a embalagem da mulher-objeto. Não há concurso de beleza inocente. Todos eles submetem à mulher, seja ela de que idade for, à condição de produto, que é exposto, analisado, aferido, dimensionado, cobiçado, desejado. E rentável. Pois afinal sempre tem dinheiro na parada, sob as mais diferentes formas – patrocínios, contratos, etc. Talvez até um pretendente endinheirado.
As mulheres compactuam. Pois vêem na conquista uma possibilidade de fazerem sucesso, de se tornarem atrizes, modelos, garotas-propagandas, atividades que lhes renderão muitas vezes mais o que ganhariam exercendo uma profissão, digamos, “comum”, mesmo aquelas que dependem de formação superior. Sem falar que passarão, em caso de destaque, a ter uma inserção profissional e social equivalente ou superior às posições de comando, de poder, escassamente ocupadas por congêneres, seja no mercado de trabalho, na política, enfim.
Como pedir às mulheres para abolirem essa oportunidade em uma sociedade de consumo e de exposição desenfreadas do seu rol de expectativas? Vencer, chegar lá, fama, idolatria, tudo isso estimulado e impulsionado pela indústria simbólica, a mídia, sempre necessitada de renovar o seu cartel de ídolos para alimentar os sonhos e as frustrações da massa.
É muito dinheiro. É jogo pesado. Para profissionais. Machos. As mulheres, significativa parcela delas ao menos, sabem que são peça-chave nesse processo. E fazem o jogo, aproveitando-se das sobras.
Portanto...sem chances. Durante muitos e muitos anos ainda teremos o Dia Internacional da Mulher, quando a Igreja Católica virá a público clamar por mais igualdade, pelos direitos das oprimidas e violentadas, enquanto mantém a proibição fatídica: mulher não pode ordenar os sacramentos. Mas por quê, Zebedeu? Mulher e homem não são iguais, a mesma coisa aos olhos de Deus? Então como podem os seus representantes máximos manter tal discriminação? Seria para evitar a tentação no âmbito interno? Ora, convenhamos, padre quando quer fornicar nem precisa de mulher.
Poder não se compartilha, poder não se divide. Não se pode colocar em risco uma formatação societária milenar, nos primórdios ungida pela força. Ou seja, como um dos pilares do processo civilizatório, a Igreja precisa dar o exemplo.
Na verdade, o que se obteve até agora é acessório, em termos de igualdade de gênero. O fundamental, o binômio básico, foi deixado de lado, tanto pelo tecido social quanto pelas mulheres: dignidade e respeito próprios. De uma maneira irrestrita, ampla.
Pior para a ínfima minoria de mulheres que decidiram quebrar as regras, não participar do esquema. Continuarão sendo a exceção que confirma a regra.
Algo é certo: como sempre haverá mulheres – plenamente apoiadas pelos homens – que não vão abrir mão de sua grande arma, a beleza (e tudo o mais que daí decorre e está implícito), podemos ficar tranqüilos até o próximo concurso, oopss, até a próxima comemoração do Dia Internacional das Mulheres.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Por supuesto
Não saberia identificar quando começou. Digamos, há uns três ou quatro anos, talvez. Ao menos foi quando eu comecei a me dar conta de como, de forma avassaladora, quase tudo se tornou suposto ou supostamente na mídia impressa e eletrônica do Brasil. Os fatos e os acontecimentos, as interrecorrências, deixaram de existir per si e por si. Quase tudo ingressou no imponderável universo do suposto. À frente de qualquer afirmação, o indefectível adjetivo suposto.
Pouco, muito pouco,escapa ao suposto que, segundo o Aurélio, vem do latim suppostu, e significa hipotético, fictício; suposto que: na suposição (ato ou efeito de supor, hipótese, conjetura) ou hipótese de que... Quer dizer, o real, o concreto, o efetivo deixou de existir. Passamos a viver em um mundo feito de atos e ações fictícias, hipotéticas. Nada é exatamente o que parece, nada pode ser assegurado com alguma certeza.
É suposto prá lá, suposto prá cá, suposto por todos os lados. Em um parágrafo às vezes há quase uma dezena de supostos. No rádio, então, o suposto impera nos boletins e nas notícias dos repórteres e âncoras.
A situação beira o absurdo. Um jornalista presencia um assalto à mão armada, é testemunha ocular do ocorrido. Mas, ao dar a notícia, fala sobre o suposto assaltante, que supostamente roubou a carteira da vítima.
Não adianta a Justiça ou a Polícia apresentarem provas contundentes de algum crime, de algum ato de estelionato, de uma corrupção. Para os jornalistas, é tudo suposto, supostamente.Nem ao menos se dão ao trabalho de utilizar outro termo equivalente.
É certo: á casos em que até se impõe o uso do suposto. Porém, é impossível que quase tudo seja meramente hipotético, fictício.
Seria uma maneira de tentar preservar-se, e evitar algum processo, alguma complicação futura, tanto de parte do profissional quanto da empresa de comunicação? Mesmo “supondo” essa precaução, justificável em alguns casos, é absolutamente impossível “supor” que tudo gravite em torno do suposto.
Parece-me, em última análise, ser viável “supor” outra explicação: como o jornalismo contemporâneo cada vez mais é um espetáculo, na acepção da palavra, nada mais óbvio de tratar tudo no âmbito da ficção, da imaginação, do provável, da mera suposição.
Assim ninguém se compromete, assim tudo fica o dito pelo não dito, assim se quebrará certeza, e tudo poderá ser algo imaginado, pode ser e pode não ser.
Fictício,leve, que não comprometa.
Uma suposição do nosso reality show cotidiano.
Pouco, muito pouco,escapa ao suposto que, segundo o Aurélio, vem do latim suppostu, e significa hipotético, fictício; suposto que: na suposição (ato ou efeito de supor, hipótese, conjetura) ou hipótese de que... Quer dizer, o real, o concreto, o efetivo deixou de existir. Passamos a viver em um mundo feito de atos e ações fictícias, hipotéticas. Nada é exatamente o que parece, nada pode ser assegurado com alguma certeza.
É suposto prá lá, suposto prá cá, suposto por todos os lados. Em um parágrafo às vezes há quase uma dezena de supostos. No rádio, então, o suposto impera nos boletins e nas notícias dos repórteres e âncoras.
A situação beira o absurdo. Um jornalista presencia um assalto à mão armada, é testemunha ocular do ocorrido. Mas, ao dar a notícia, fala sobre o suposto assaltante, que supostamente roubou a carteira da vítima.
Não adianta a Justiça ou a Polícia apresentarem provas contundentes de algum crime, de algum ato de estelionato, de uma corrupção. Para os jornalistas, é tudo suposto, supostamente.Nem ao menos se dão ao trabalho de utilizar outro termo equivalente.
É certo: á casos em que até se impõe o uso do suposto. Porém, é impossível que quase tudo seja meramente hipotético, fictício.
Seria uma maneira de tentar preservar-se, e evitar algum processo, alguma complicação futura, tanto de parte do profissional quanto da empresa de comunicação? Mesmo “supondo” essa precaução, justificável em alguns casos, é absolutamente impossível “supor” que tudo gravite em torno do suposto.
Parece-me, em última análise, ser viável “supor” outra explicação: como o jornalismo contemporâneo cada vez mais é um espetáculo, na acepção da palavra, nada mais óbvio de tratar tudo no âmbito da ficção, da imaginação, do provável, da mera suposição.
Assim ninguém se compromete, assim tudo fica o dito pelo não dito, assim se quebrará certeza, e tudo poderá ser algo imaginado, pode ser e pode não ser.
Fictício,leve, que não comprometa.
Uma suposição do nosso reality show cotidiano.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
A sorte está ao lado. Dos irresponsáveis
Arnaldo é um sujeito que chega atrasado ao trabalho; Arnaldo é um funcionário que não cumpre os prazos estabelecidos para concluir suas tarefas; Arnaldo é um trabalhador que não realiza a contento o que lhe foi determinado; Arnaldo não tem disposição de fazer um plantão de final de semana.
Mesmo assim, apesar dos evidentes sinais de irresponsabilidade, incompetência e descompromisso, Arnaldo é o escolhido pela “sorte”, contrariando os antigos ditados populares, segundo os quais a sorte, essa entidade mágica e irracional, acompanha quem trabalha, quem se esforça, quem madruga.
Arnaldo é o personagem central de uma campanha publicitária da Caixa Econômica Federal, órgão governamental gestor dos jogos de azar legalizados no Brasil. Na segunda-feira, ele não chega no horário; na terça, é preciso ser lembrado pelo chefe que ainda não entregou um relatório; na quarta, o chefe é obrigado a chamá-lo porque não entendeu nada do relatório por ele produzido.
Na quinta,o “rigoroso”, “implacável” e “durão” chefe o escala para um plantão no final de semana.
Mas Arnaldo se safa desse sacrifício. Porque ganhou, sozinho, uma das tantas modalidades de jogos oferecidos legalmente, a Quina. Acertou cinco números e, pela média, teria conseguido uma premiação de em torno de R$ 1 milhão, ou um pouco mais. O suficiente para Arnaldo não aparecer mais no serviço.
Ao invés do bordão utilizado em outras peças, “ a sorte sorri para todos”, indiscriminadamente, deixando claro que os pobres e os despossuídos estão em pé de igualdade com os ricos no que diz respeito à possibilidade de ganhar em uma das inúmeras alternativas da jogatina oficial, a historinha de Arnaldo tem a ver com o fato que “todo o dia é dia de sorte”. Isso porque agora a Quina pode ser jogada em qualquer dia da semana. Antes eram apenas três vezes.
Quer dizer, além de estimular a jogatina, especialmente junto às classes menos favorecidas, aquelas para as quais cinco inocentes joguinhos de 50 centavos, a aposta mínima, representam semanalmente no mínimo um litro de leite, agora o cassino legal estimula a irresponsabilidade, passando inclusive a mensagem, nada subliminar, que não é necessário ser um cidadão cumpridor dos seus deveres, ser um trabalhador aplicado. O negócio é jogar. Pois afinal, a “sorte” vai lhe sorrir. Todos os dias.
O pior é constatar, nas casas lotéricas, que as pessoas, geralmente as mais humildes, não se limitam a um jogo de 50 centavos. Vão além. Às vezes muito além. Gastando um dinheiro que vai fazer falta e jamais será recuperado.
Porque não adianta alegar que os recursos, polpudos, obtidos com a jogatina, são aplicados em alguns programas sociais. É vestir um santo e despir outro. Sem contar o mais grave: o estímulo à degradação dos valores essenciais da cidadania.
Países como a Itália estão alarmados com a febre da jogatina dos números, e especialmente com o marketing, com a promoção incentivadora da prática, que faz vítimas em todas as idades, dos jovens aos mais idosos. Inclusive se estuda um projeto para limitar a propaganda, em uma tentativa de arrefecer a jogatina, já encarada como doença.
No Brasil, chega-se ao estupor máximo. Jogo e estímulo à irresponsabilidade.
Não é a sorte que muda a vida de um povo. Mas educação e trabalho responsável. Nenhum país do mundo atingiu patamares decentes de índacores econômicos e sociais incentivando seus cidadãos a apostar na sorte. Nenhum país do mundo redistribuiu melhor a riqueza nacional com jogos de azar.
Nenhum país do mundo se tornou mais democrático, menos corrupto, premiando quem chega atrasado no serviço, quem não entrega trabalho no prazo.
É terrível perceber como a violência simbólica dessas mensagens faz vítimas de maneira implacável. Todos os dias. De sorte.
Mesmo assim, apesar dos evidentes sinais de irresponsabilidade, incompetência e descompromisso, Arnaldo é o escolhido pela “sorte”, contrariando os antigos ditados populares, segundo os quais a sorte, essa entidade mágica e irracional, acompanha quem trabalha, quem se esforça, quem madruga.
Arnaldo é o personagem central de uma campanha publicitária da Caixa Econômica Federal, órgão governamental gestor dos jogos de azar legalizados no Brasil. Na segunda-feira, ele não chega no horário; na terça, é preciso ser lembrado pelo chefe que ainda não entregou um relatório; na quarta, o chefe é obrigado a chamá-lo porque não entendeu nada do relatório por ele produzido.
Na quinta,o “rigoroso”, “implacável” e “durão” chefe o escala para um plantão no final de semana.
Mas Arnaldo se safa desse sacrifício. Porque ganhou, sozinho, uma das tantas modalidades de jogos oferecidos legalmente, a Quina. Acertou cinco números e, pela média, teria conseguido uma premiação de em torno de R$ 1 milhão, ou um pouco mais. O suficiente para Arnaldo não aparecer mais no serviço.
Ao invés do bordão utilizado em outras peças, “ a sorte sorri para todos”, indiscriminadamente, deixando claro que os pobres e os despossuídos estão em pé de igualdade com os ricos no que diz respeito à possibilidade de ganhar em uma das inúmeras alternativas da jogatina oficial, a historinha de Arnaldo tem a ver com o fato que “todo o dia é dia de sorte”. Isso porque agora a Quina pode ser jogada em qualquer dia da semana. Antes eram apenas três vezes.
Quer dizer, além de estimular a jogatina, especialmente junto às classes menos favorecidas, aquelas para as quais cinco inocentes joguinhos de 50 centavos, a aposta mínima, representam semanalmente no mínimo um litro de leite, agora o cassino legal estimula a irresponsabilidade, passando inclusive a mensagem, nada subliminar, que não é necessário ser um cidadão cumpridor dos seus deveres, ser um trabalhador aplicado. O negócio é jogar. Pois afinal, a “sorte” vai lhe sorrir. Todos os dias.
O pior é constatar, nas casas lotéricas, que as pessoas, geralmente as mais humildes, não se limitam a um jogo de 50 centavos. Vão além. Às vezes muito além. Gastando um dinheiro que vai fazer falta e jamais será recuperado.
Porque não adianta alegar que os recursos, polpudos, obtidos com a jogatina, são aplicados em alguns programas sociais. É vestir um santo e despir outro. Sem contar o mais grave: o estímulo à degradação dos valores essenciais da cidadania.
Países como a Itália estão alarmados com a febre da jogatina dos números, e especialmente com o marketing, com a promoção incentivadora da prática, que faz vítimas em todas as idades, dos jovens aos mais idosos. Inclusive se estuda um projeto para limitar a propaganda, em uma tentativa de arrefecer a jogatina, já encarada como doença.
No Brasil, chega-se ao estupor máximo. Jogo e estímulo à irresponsabilidade.
Não é a sorte que muda a vida de um povo. Mas educação e trabalho responsável. Nenhum país do mundo atingiu patamares decentes de índacores econômicos e sociais incentivando seus cidadãos a apostar na sorte. Nenhum país do mundo redistribuiu melhor a riqueza nacional com jogos de azar.
Nenhum país do mundo se tornou mais democrático, menos corrupto, premiando quem chega atrasado no serviço, quem não entrega trabalho no prazo.
É terrível perceber como a violência simbólica dessas mensagens faz vítimas de maneira implacável. Todos os dias. De sorte.
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