segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A sorte está ao lado. Dos irresponsáveis

Arnaldo é um sujeito que chega atrasado ao trabalho; Arnaldo é um funcionário que não cumpre os prazos estabelecidos para concluir suas tarefas; Arnaldo é um trabalhador que não realiza a contento o que lhe foi determinado; Arnaldo não tem disposição de fazer um plantão de final de semana.

Mesmo assim, apesar dos evidentes sinais de irresponsabilidade, incompetência e descompromisso, Arnaldo é o escolhido pela “sorte”, contrariando os antigos ditados populares, segundo os quais a sorte, essa entidade mágica e irracional, acompanha quem trabalha, quem se esforça, quem madruga.

Arnaldo é o personagem central de uma campanha publicitária da Caixa Econômica Federal, órgão governamental gestor dos jogos de azar legalizados no Brasil. Na segunda-feira, ele não chega no horário; na terça, é preciso ser lembrado pelo chefe que ainda não entregou um relatório; na quarta, o chefe é obrigado a chamá-lo porque não entendeu nada do relatório por ele produzido.

Na quinta,o “rigoroso”, “implacável” e “durão” chefe o escala para um plantão no final de semana.

Mas Arnaldo se safa desse sacrifício. Porque ganhou, sozinho, uma das tantas modalidades de jogos oferecidos legalmente, a Quina. Acertou cinco números e, pela média, teria conseguido uma premiação de em torno de R$ 1 milhão, ou um pouco mais. O suficiente para Arnaldo não aparecer mais no serviço.

Ao invés do bordão utilizado em outras peças, “ a sorte sorri para todos”, indiscriminadamente, deixando claro que os pobres e os despossuídos estão em pé de igualdade com os ricos no que diz respeito à possibilidade de ganhar em uma das inúmeras alternativas da jogatina oficial, a historinha de Arnaldo tem a ver com o fato que “todo o dia é dia de sorte”. Isso porque agora a Quina pode ser jogada em qualquer dia da semana. Antes eram apenas três vezes.

Quer dizer, além de estimular a jogatina, especialmente junto às classes menos favorecidas, aquelas para as quais cinco inocentes joguinhos de 50 centavos, a aposta mínima, representam semanalmente no mínimo um litro de leite, agora o cassino legal estimula a irresponsabilidade, passando inclusive a mensagem, nada subliminar, que não é necessário ser um cidadão cumpridor dos seus deveres, ser um trabalhador aplicado. O negócio é jogar. Pois afinal, a “sorte” vai lhe sorrir. Todos os dias.

O pior é constatar, nas casas lotéricas, que as pessoas, geralmente as mais humildes, não se limitam a um jogo de 50 centavos. Vão além. Às vezes muito além. Gastando um dinheiro que vai fazer falta e jamais será recuperado.

Porque não adianta alegar que os recursos, polpudos, obtidos com a jogatina, são aplicados em alguns programas sociais. É vestir um santo e despir outro. Sem contar o mais grave: o estímulo à degradação dos valores essenciais da cidadania.

Países como a Itália estão alarmados com a febre da jogatina dos números, e especialmente com o marketing, com a promoção incentivadora da prática, que faz vítimas em todas as idades, dos jovens aos mais idosos. Inclusive se estuda um projeto para limitar a propaganda, em uma tentativa de arrefecer a jogatina, já encarada como doença.

No Brasil, chega-se ao estupor máximo. Jogo e estímulo à irresponsabilidade.

Não é a sorte que muda a vida de um povo. Mas educação e trabalho responsável. Nenhum país do mundo atingiu patamares decentes de índacores econômicos e sociais incentivando seus cidadãos a apostar na sorte. Nenhum país do mundo redistribuiu melhor a riqueza nacional com jogos de azar.

Nenhum país do mundo se tornou mais democrático, menos corrupto, premiando quem chega atrasado no serviço, quem não entrega trabalho no prazo.

É terrível perceber como a violência simbólica dessas mensagens faz vítimas de maneira implacável. Todos os dias. De sorte.

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