Pois é, neste dia 8 de março do ano da graça de 2010 novamente algumas parcelas esclarecidas da sociedade e do poder instituído em todo o mundo “comemoraram” o Dia Internacional da Mulher. Como invariavelmente ocorre nessa data, a par das festividades e eventos, pululam pesquisas a respeito dos escassos avanços conquistados pelo gênero feminino em diferentes setores. Mas, tirando a hipocrisia, e a inconsciência, tudo continua muito desigual, a começar pela paridade em termos salariais e participação da mulher em postos de comando na iniciativa privada e na política. Sem falar que tudo continua muito igual no que diz respeito à mulher continuar sendo saco de pancada, vítima da violência masculina.
Novas medidas são anunciadas, programas, estratégias, como na União Europeia, para amenizar a discriminação, principalmente por ser um fato que emperra o crescimento econômico ( ao fim e ao cabo, o que realmente interessa).
Como a evolução efetiva é ridícula, cantam-se loas às conquistas já conquistadas, como na área dos direitos políticos e civis, ao menos se não nos referirmos aos países do mundo árabe, judeus ortodoxos e aos povos de países africanos.
Mas circunscrevendo a questão apenas ao mundo ocidental, e a outros países “domesticados” pela cultura da civilização cristã, o fato é que a mulher continua sendo, ela própria, o elemento fundador da desigualdade entre gêneros.
Como isso não vai mudar, tudo continuará como sempre.
Quero dizer simplesmente que, enquanto houver uma única mulher que se submeta a subir em uma passarela, a disputar um concurso de miss, de mais bela de qualquer coisa ou lugar, de se sujeitar a ser um objeto a ser apreciado-consumido, não tem como atacar o mal pela raiz, extirpando-o.
Naturalmente, a questão da passarela está posta como uma referência simbólica. As variáveis estão aí incluídas, como as modelos e todas as formas que fazem e se utilizam da mulher como mera mercadoria.
Também entra nesse contexto a mulher prostituta, que vende o seu corpo para saciar sexualmente o homem. Nesse sentido, é incrível que grupos ideológicos autodenominados progressistas estimulem inclusive a organização das mulheres-trabalhadoras-que-vendem-o-seu-corpo, no sentido de defenderem os seus direitos.
Por aí se percebe a dimensão e a complexidade da questão de gênero. Estamos falando nada mais nada menos daquela que é denominada pela sociedade machista como a mais antiga profissão do mundo. Mas se ao menos algumas formas de submissão, de exploração e escravidão fossem combatidas, aí sim se poderia falar em avanços.
A beleza é a embalagem da mulher-objeto. Não há concurso de beleza inocente. Todos eles submetem à mulher, seja ela de que idade for, à condição de produto, que é exposto, analisado, aferido, dimensionado, cobiçado, desejado. E rentável. Pois afinal sempre tem dinheiro na parada, sob as mais diferentes formas – patrocínios, contratos, etc. Talvez até um pretendente endinheirado.
As mulheres compactuam. Pois vêem na conquista uma possibilidade de fazerem sucesso, de se tornarem atrizes, modelos, garotas-propagandas, atividades que lhes renderão muitas vezes mais o que ganhariam exercendo uma profissão, digamos, “comum”, mesmo aquelas que dependem de formação superior. Sem falar que passarão, em caso de destaque, a ter uma inserção profissional e social equivalente ou superior às posições de comando, de poder, escassamente ocupadas por congêneres, seja no mercado de trabalho, na política, enfim.
Como pedir às mulheres para abolirem essa oportunidade em uma sociedade de consumo e de exposição desenfreadas do seu rol de expectativas? Vencer, chegar lá, fama, idolatria, tudo isso estimulado e impulsionado pela indústria simbólica, a mídia, sempre necessitada de renovar o seu cartel de ídolos para alimentar os sonhos e as frustrações da massa.
É muito dinheiro. É jogo pesado. Para profissionais. Machos. As mulheres, significativa parcela delas ao menos, sabem que são peça-chave nesse processo. E fazem o jogo, aproveitando-se das sobras.
Portanto...sem chances. Durante muitos e muitos anos ainda teremos o Dia Internacional da Mulher, quando a Igreja Católica virá a público clamar por mais igualdade, pelos direitos das oprimidas e violentadas, enquanto mantém a proibição fatídica: mulher não pode ordenar os sacramentos. Mas por quê, Zebedeu? Mulher e homem não são iguais, a mesma coisa aos olhos de Deus? Então como podem os seus representantes máximos manter tal discriminação? Seria para evitar a tentação no âmbito interno? Ora, convenhamos, padre quando quer fornicar nem precisa de mulher.
Poder não se compartilha, poder não se divide. Não se pode colocar em risco uma formatação societária milenar, nos primórdios ungida pela força. Ou seja, como um dos pilares do processo civilizatório, a Igreja precisa dar o exemplo.
Na verdade, o que se obteve até agora é acessório, em termos de igualdade de gênero. O fundamental, o binômio básico, foi deixado de lado, tanto pelo tecido social quanto pelas mulheres: dignidade e respeito próprios. De uma maneira irrestrita, ampla.
Pior para a ínfima minoria de mulheres que decidiram quebrar as regras, não participar do esquema. Continuarão sendo a exceção que confirma a regra.
Algo é certo: como sempre haverá mulheres – plenamente apoiadas pelos homens – que não vão abrir mão de sua grande arma, a beleza (e tudo o mais que daí decorre e está implícito), podemos ficar tranqüilos até o próximo concurso, oopss, até a próxima comemoração do Dia Internacional das Mulheres.
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