segunda-feira, 19 de julho de 2010

Carta à dona Maria


Minha querida dona Maria, veja só do que escapaste. Como minha mãe, algumas vezes utilizaste o expediente da palmada na bunda, nunca na cabeça ou em outras partes do corpo, como uma maneira de dar a mim, seu filho, uma noção exata do errado e do certo (é, nesse tempo ainda se fazia a distinção), de estabelecer disciplina. Se fosse hoje, minha querida mãe, estarias correndo o risco de seres presa, caso eu, ou um vizinho, a denunciasse.

Minha querida dona Maria, esteja onde estiveres, apenas queria, mais uma vez, proclamar, alto e bom som, o quanto eu sou grato pelas palmadas que recebi. Da senhora e aquela única, e inesquecível, do meu estimado pai – por eu tê-la desrespeitado com ofensas, em um acesso de raiva.

Muito obrigado mesmo! Pois elas, as palmadas, como parte integrante do processo de educação e formação que a senhora em especial me propiciou, foram fundamentais para a estruturação do melhor da minha personalidade., da minha identidade como cidadão, da minha postura no contexto social.

Associadas, ou como última instância, do diálogo e do discurso didático formativo familiar, as palmadas serviram como alerta, como sinalização, como o apelo mais candente para o estabelecimento de limites, para o reconhecimento do direito dos outros, dos deveres e das responsabilidades inerentes à prática existencial cotidiana.

Sabe mãe, nem sei se vale a pena contar para a turma dos “direitos humanos”, que não se tratava de violência, de agressão, de humilhação. Não, suas palmadas eram palmadas de mãe, dosadas pelo bom senso infinito do carinho materno, equilibradas pelo sentido educacional subjacente ao afeto autêntico. A força de suas palmadas, ou da perspectiva delas, estava assentada nas variáveis que alicerçam o amor verdadeiro, como respeito, honestidade, sinceridade, solidariedade.

Elas doíam um pouco, é claro. Mais tarde, porém, ao tornar-me adulto, ao apurar a minha capacidade de reflexão e de elaboração, percebi o quanto elas foram suaves, mas firmes o suficiente para surtir o efeito positivo esperado.

Naturalmente, minha querida mãe, como a senhora bem o sabe, tive muitos percalços ao longo de minha trajetória. Enveredei por caminhos extremamente tortuosos e compus uma sinfonia de vida com notas um tanto quanto dissonantes.

Apesar de tudo, porém, sempre consegui preservar, no mais recôndito do meu âmago, algumas reservas de valores, de princípios, de fé, sempre suficientes para reerguerem-me, superar os mecanismos autodestrutivos, enfrentar as vicissitudes externas e seguir em frente, crescendo como pessoa ao ponto de hoje considerar-me um vencedor, mais do que um sobrevivente.

E as palmadas, dona Maria, fizeram a sua parte. Muitas vezes, aliás, elas nem eram necessárias. Como daquela vez em que eu, radiante, cheguei em casa com muitos carrinhos. Não sei se a senhora lembra. Foi assim: eu pedi dinheiro para comprar os tais carrinhos, espécies de miniaturas, bem pequenos; alguns eram branquinhos, com uma cruz vermelha no capô, as ambulâncias; outros eram “carros de passeio”, outros, caminhões com carroceria aberta.

A senhora me deu o dinheiro e eu, e mais um amiguinho, fomos até um bazar, de propriedade de um sujeito que era deficiente físico. Chegando lá, por conta das dificuldades do dono do estabelecimento, que vivia em uma cadeira de rodas, bastou um átimo de sua distração para eu e meu amiguinho enchermos os bolsos de carrinhos. E pagarmos apenas alguns.

Ao chegar em casa, vendo aquela quantidade de carrinhos, dona Maria estranhou, pois não imaginava que o dinheiro que ela me dera fosse suficiente para comprar tantas unidades. Inquiriu-me e eu confessei a artimanha.

Pois bem. Ela fez o seguinte: depois de um longo discurso sobre a importância de “não lograr os outros”, ela sentenciou: meu filho, você vai voltar na loja, e dizer ao dono que se enganou, que pegou carrinhos a mais. Eu vou ficar aqui na esquina, te olhando. Se não fizeres isso, já sabes...

Sim...eu já sabia. Com os meus seis, sete anos mais ou menos, percebi que fizera algo muito errado e que as palmadas estavam à espreita. Bastava um deslize. Assim, submeti-me à “vergonhosa” situação, devolvi os carrinhos, pedi desculpas pelo engano. Escapei das palmadas e nunca mais esqueci da lição.

Sabe dona Maria, esse é apenas um dos episódios marcantes da nossa convivência. Não especificamente pelas palmadas, mas por todas as nuances relativas à educação e à formação que a senhora e o meu pai transmitiram a mim.

É engraçado, a senhora mal sabia assinar o nome. Mas foi a mãe literalmente obsessiva por fazer o filho estudar, a mãe do diálogo, das conversas, dos conselhos, dos valores. E das eventuais palmadas.

Hoje acho que a senhora seria queimada em uma fogueira.

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