Não saberia identificar quando começou. Digamos, há uns três ou quatro anos, talvez. Ao menos foi quando eu comecei a me dar conta de como, de forma avassaladora, quase tudo se tornou suposto ou supostamente na mídia impressa e eletrônica do Brasil. Os fatos e os acontecimentos, as interrecorrências, deixaram de existir per si e por si. Quase tudo ingressou no imponderável universo do suposto. À frente de qualquer afirmação, o indefectível adjetivo suposto.
Pouco, muito pouco,escapa ao suposto que, segundo o Aurélio, vem do latim suppostu, e significa hipotético, fictício; suposto que: na suposição (ato ou efeito de supor, hipótese, conjetura) ou hipótese de que... Quer dizer, o real, o concreto, o efetivo deixou de existir. Passamos a viver em um mundo feito de atos e ações fictícias, hipotéticas. Nada é exatamente o que parece, nada pode ser assegurado com alguma certeza.
É suposto prá lá, suposto prá cá, suposto por todos os lados. Em um parágrafo às vezes há quase uma dezena de supostos. No rádio, então, o suposto impera nos boletins e nas notícias dos repórteres e âncoras.
A situação beira o absurdo. Um jornalista presencia um assalto à mão armada, é testemunha ocular do ocorrido. Mas, ao dar a notícia, fala sobre o suposto assaltante, que supostamente roubou a carteira da vítima.
Não adianta a Justiça ou a Polícia apresentarem provas contundentes de algum crime, de algum ato de estelionato, de uma corrupção. Para os jornalistas, é tudo suposto, supostamente.Nem ao menos se dão ao trabalho de utilizar outro termo equivalente.
É certo: á casos em que até se impõe o uso do suposto. Porém, é impossível que quase tudo seja meramente hipotético, fictício.
Seria uma maneira de tentar preservar-se, e evitar algum processo, alguma complicação futura, tanto de parte do profissional quanto da empresa de comunicação? Mesmo “supondo” essa precaução, justificável em alguns casos, é absolutamente impossível “supor” que tudo gravite em torno do suposto.
Parece-me, em última análise, ser viável “supor” outra explicação: como o jornalismo contemporâneo cada vez mais é um espetáculo, na acepção da palavra, nada mais óbvio de tratar tudo no âmbito da ficção, da imaginação, do provável, da mera suposição.
Assim ninguém se compromete, assim tudo fica o dito pelo não dito, assim se quebrará certeza, e tudo poderá ser algo imaginado, pode ser e pode não ser.
Fictício,leve, que não comprometa.
Uma suposição do nosso reality show cotidiano.
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