segunda-feira, 23 de junho de 2014

A verdade perdeu


Conheci José Lutzenberger em meados da efervescente década de 70, quando, na esteira dos movimentos da contracultura, esboçavam-se algumas reações em defesa da preservação da natureza. Como repórter do jornal Zero Hora, perdi a conta dos inúmeros contatos que mantive com aquele sujeito esguio, um tanto quanto agitado, mas de uma inteligência sagaz, de um raciocínio fundamentado, que se materializava em um discurso articulado, uma rede de ideias e constatações conectadas por uma lógica implacável.

Mesmo quando a “matéria”, a princípio, não se relacionava diretamente a ele, sempre procurava consultá-lo, ouvir o seu parecer. Nos arquivos do jornal estão adormecidos textos e textos com as sábias, e pouco consideradas, palavras de Lutzenberger.

Ele era um obcecado, pode-se dizer. Um obcecado por uma causa perdida. Como podemos constatar agora. Porque para além de movimentações, encontros, compromissos e protocolos “faz de conta”, a humanidade segue a trilha irreversível da sua própria destruição.

Plenamente absorvida pelos interesses da indústria cultural, obedecendo os ditames dos interesses econômicos, as palavras de ordem atuais ressoam como um eco que se perde na atmosfera saturada.

Sustentabilidade, efeito estufa, aquecimento, redução das emissões de CO2, protocolo de Kioto, compromissos do Milênio, biocombustíveis, alimentos orgânicos, reciclagem e assim por diante. A lista é infindável.

Pouco ou quase nada adiantaram os alertas de Lutzenberger. Uma ou outra iniciativa pontual são exaltadas pela mídia como exemplos. Meras exceções que confirmam a regra.

Por isso, para que não se esqueça que muito, muito antes dos atuais ecoconsultores, dos engravatados defensores da sustentabilidade, um homem trouxe à tona a verdade, publico um texto de autoria de Lutz.



Dos fertilizantes químicos e agrotóxicos à biotecnologia

José A. Lutzenberger

Na controvérsia reinante atualmente em torno da biotecnologia, como vem sendo aplicada à agricultura, existe muita desinformação resultando em preocupação desnecessária em algumas áreas e uma muito mais séria falta de preocupação em outras. É preciso olhar o quadro completo para poder entender porque e como a produção agrícola é cada vez mais dominada por corporações gigantes. Nos dias de hoje, o quase total controle da biotecnologia pelas grandes empresas é apenas a culminação de um processo que vem crescendo nos últimos 75 anos. Vamos analisar o panorama da agricultura segundo a perspectiva atual.

A agricultura foi inventada entre 10 e 15 mil anos atrás, e nos últimos 2 ou 3 mil anos evoluiu para belas e sustentáveis culturas camponesas, localmente adaptadas e sustentáveis, em muitas regiões do mundo, especialmente na Europa, Ásia, México, América Central, Andes, e em algumas regiões na África. Desde o início da colonização, agricultores americanos, apesar de muitos desastres, tais como as tempestades de poeira, também desenvolveram belos sistemas agrícolas, que estavam se tornando sustentáveis. Muitas dessas culturas ainda estavam intactas até o final da Segunda Guerra Mundial. As poucas remanescentes estão agora sendo desestruturadas.

A indústria tem conseguido sucessivamente se apropriar de uma parte crescente das atividades dos agricultores, tomando deles tudo o que permite a ela a obtenção de lucros seguros e deixando-lhes os riscos – o risco de má colheita devido a mau tempo e o risco de perder dinheiro devido à crescente dependência de insumos agrícolas que devem ser adquiridos a preços crescentes e tendo que vender seu produto a preços cada vez mais baixos.

O argumento convencional em favor dos métodos da agricultura moderna é que eles constituem a única maneira eficiente de resolver o problema da fome mundial e da alimentação das massas que ainda estão por vir com a explosão populacional. Mas isto é uma ilusão. É certo que os métodos agrícolas tradicionais poderiam ser aperfeiçoados com o conhecimento científico atual de como as plantas crescem, da estrutura do solo, da química e vida do mesmo, bem como do metabolismo das plantas e assim por diante. Mas o aperfeiçoamento não precisa ser direcionado para monoculturas gigantescas, altamente mecanizadas e com toda a parafernália dos fertilizantes comerciais e venenos sintéticos, com a produção agrícola sendo transportada pelo mundo todo. A grande monocultura foi uma invenção do colonialismo. Os poderes coloniais não podiam extrair muito do campesinato tradicional com suas safras altamente diversificadas, para a subsistência e direcionadas para os mercados regionais e locais. Eles queriam grandes quantidades de algodão, açúcar, café, chá, cacau e outros. Isto conduziu à marginalização de milhões de pessoas e também esteve na raiz do tráfico de escravos da África para as Américas, uma das maiores calamidades da história humana.

Mas, o problema fundamental com a agricultura moderna é que ela não é sustentável. Mesmo se fosse tão produtiva quanto é afirmado, o desastre seria apenas postergado e seria então muito pior. Se quisermos alimentar as massas crescentes – é claro que deveremos encontrar também maneiras de controlar nossos números – teremos de desenvolver métodos de produção agrícola sustentável.

Com muito poucas exceções os camponeses tradicionais desenvolveram métodos sustentáveis. Os agricultores chineses, por exemplo, por três mil anos obtiveram alta produtividade dos seus solos sem comprometer a fertilidade. Ao contrário, eles desenvolveram e mantiveram uma fertilidade máxima do solo. Os agricultores regenerativos modernos estão aprendendo a se tornar cada vez mais sustentáveis, com colheitas ótimas e métodos localmente adaptados, enquanto recuperam e mantém a biodiversidade nos seus cultivares e na paisagem circundante. Vamos chamá-los agricultores regenerativos, e não biológicos, orgânicos ou alternativos. Quando se trata de vida, seja bom ou mau, tudo é biológico, é orgânico, mesmo grandes massacres. Alternativo apenas significa diferente, poderia ser pior. Mas regenerativo significa regeneração do que tem sido perdido ou destruído.

A agricultura moderna tem se desligado da lógica dos sistemas vivos naturais. Todos os ecossistemas naturais possuem retroação interna automática que, desde o começo, tal como quando um novo pedaço de terra estéril, digamos, a encosta de um vulcão, é conquistado, faz as condições ambientais melhorarem até que um clímax de atividade biológica máxima e sustentável seja atingido. Nossos ecossistemas de agricultura moderna fazem exatamente o oposto, ao impor retroações (agroquímica, agressão mecânica ao solo) que gradualmente degradam o meio ambiente e empobrecem a biodiversidade.

Infelizmente, a agricultura moderna obtém sucesso exaurindo o solo e substituindo a fertilidade perdida por nutrientes que vêm de fora. Fertilizantes comerciais, tais como fosfatos provém de minas que estarão brevemente esgotadas, as minas de potássio são mais abundantes, mas nitrogênio, o mais importante elemento na produtividade da agricultura moderna, embora venha da atmosfera, uma fonte virtualmente inesgotável e para lá acaba voltando, é obtido pela síntese de amoníaco Haber-Bosch, um processo que consome enormes quantidades de energia, principalmente energia de combustíveis fósseis. Mesmo quando é energia proveniente de hidroelétricas, trata-se de eletricidade que poderia estar economizando combustíveis fósseis em outro lugar. Todos os outros insumos, tais como os agrotóxicos e a cada vez mais pesada maquinaria, são também grandes consumidores de energia.

Mas a agricultura, se a olharmos de uma perspectiva holística, ecológica, é um esquema para colher energia solar via fotossíntese. Enquanto todas as formas de agricultura tradicional têm um balanço de energia positivo, a agricultura moderna perverte até mesmo este aspecto fundamental. Em sua maior parte, tem balanço de energia negativo. Quase todas as suas operações supostamente de alta produtividade requerem mais energia fóssil nos insumos do que está contido em seu produto. Para usar uma metáfora adequada, isto tem se tornado como um poço de petróleo onde o motor que aciona a bomba consome mais combustível do que ela pode extrair. Este tipo de operação só pode sobreviver com subsídios...

Sustentam que a agricultura moderna é tão eficiente que apenas em torno de 2% da população pode alimentar o total da população. Até a virada do século, na Europa, nos Estados Unidos e na maioria dos países, quase 60% da população trabalhava no campo. No final da última Guerra Mundial ainda era quase 40%. Atualmente, nos Estados Unidos, menos de 2% da população trabalha na agricultura. Na maioria dos países europeus o número está se aproximando aos 2%, visto que ainda continua a marginalização de agricultores. Agora, quando se afirma que nas economias modernas somente 2% das pessoas podem alimentar a população total, em comparação a 60 ou 40% no passado, isto é, ou uma ilusão para os que acreditam ou uma mentira para os que sabem, baseada numa falsa comparação.

No contexto da economia, como um todo, o antigo campesinato era um sistema de produção, manipulação e distribuição de alimento que também produzia seus próprios insumos. A fertilidade do solo era mantida com esterco, rotação de cultivos, plantas companheiras, adubação verde, composto, cobertura morta e descanso da terra; as sementes eram selecionadas do melhor de cada safra; animais de carga e tração supriam a energia; os moinhos usavam vento ou água como fonte de energia. Tudo era energia solar. A pouca manipulação ou beneficiamento que os alimentos sofriam era feita na propriedade ou na aldeia, cujos artesãos também contavam como população rural. O mesmo se aplicava aos utensílios, arados, enxadas, carretas, etc... A maior parte da produção agrícola era entregue quase nas mãos do consumidor na feira semanal. Em nossa língua sobra uma linda relíquia daqueles tempos: segunda, terça, quarta-feira,...

Mas o agricultor moderno é apenas uma pequena engrenagem em uma enorme infraestrutura tecnoburocrática que requer até mesmo legislação especial e pesados subsídios. Comparado com seus antecessores que faziam quase tudo que estava relacionado com a produção, processamento e distribuição de alimentos, ele não é muito mais do que um tratorista e um espalhador de veneno.

Depois da última Guerra Mundial, quando a Alemanha estava totalmente devastada, é verdade que o Plano Marshall ajudou, mas, mais importante é que os habitantes das cidades podiam se espalhar pelo campo e fazer “hamstern”, isto é, trocar qualquer coisa de valor, um relógio, um anel, um piano, por alimento. Os camponeses tinham comida, tinham cereais, feijão, batata, verduras, frutas, leite, queijo, frango, ganso, e muito mais.

Não seria necessária uma guerra hoje para colocar os agricultores europeus em uma posição em que eles próprios teriam de fazer “hamstern”, mas onde?! Nenhuma bomba precisa cair. Um simples colapso na energia, no transporte, especialmente na importação de fertilizantes minerais e ração para gado, no sistema bancário e mesmo nas redes de computadores e comunicações, seria suficiente. Espantoso, que os militares não pareçam estar preocupados. Fundamentalmente, a segurança nacional depende de uma agricultura sadia e sustentável.

O sistema atual de produção e distribuição de alimentos (incluindo fibras e alguns outros itens não comestíveis) começa nos campos de petróleo e todos os tipos de minas para metais e outras matérias-primas, passa pelas refinarias, siderurgias e plantas de alumínio, etc., a indústria química, a indústria de maquinária, o sistema bancário, o envolvente sistema de transporte (consumindo principalmente combustíveis fósseis), computadores, supermercados, indústria de embalagens e um totalmente novo complexo de indústrias que quase não existiam no passado - a indústria de manipulação de alimentos que mais mereceria ser chamada de indústria de desnaturação e contaminação de alimentos (com aditivos e resíduos de agrotóxicos). Se quisermos comparar o agricultor de hoje com o tradicional, então todas as horas de trabalho nas indústrias acima mencionados e algumas outras, assim como alguns serviços, tal como as empresas de “fast food” que, em inglês, bem merecem o qualificativo de “junk food” (comida entulho), e distribuição de alimentos, até onde elas direta ou indiretamente contribuem para a produção, manipulação e distribuição de alimentos, precisam ser adicionados. Isto tudo deveria até mesmo incluir as horas de trabalho que correspondem ao dinheiro que, em outras profissões, precisa ser ganho para pagar os impostos que financiam os subsídios. É significativo que a maior parte dos subsídios vai, não para o agricultor, mas para o complexo industrial. O agricultor é sempre mantido à beira da falência.

Um balanço completo deste tipo certamente mostraria que, atualmente, numa economia moderna, também em torno de quarenta ou mais por cento de todas as horas de trabalho vão para a produção, manipulação e distribuição da comida. Mas os economistas convencionais de hoje, aqueles que nossos governantes escutam, em sua visão não holística, colocam as fábricas de tratores e colheitadeiras com a indústria de maquinária, as fábricas de fertilizantes químicos e agrotóxicos com a indústria química e assim por diante, como se não tivessem nada a ver com alimentos.

O que temos, então, com umas poucas exceções, é redistribuição de tarefas e certas formas de concentração de poder nas grandes corporações, e não mais eficiência na agricultura.

Vamos olhar com mais detalhe para alguns dos aspectos decisivos: quase sempre o moderno sistema de produção e distribuição de alimentos, além de não ser mais produtivo em termos de eficiência de mão de obra, tampouco é mais eficaz em termos de produtividade por hectare. Em muitos casos, tais como na criação intensiva de animais, ele é mesmo destrutivo, consumindo mais alimento do que produz.

No sul do Brasil, durante a última metade do século XX a grande floresta subtropical do Vale do Uruguai foi completamente demolida, deixando apenas algumas pequenas relíquias. A floresta foi derrubada e queimada com a quase total destruição da madeira, para abrir espaço para a monocultura de soja. Isto não foi feito para aliviar o problema da fome nas regiões pobres do Brasil, mas para enriquecer uma minoria (pessoas sem tradição agrícola) com a exportação para o Mercado Comum Europeu para alimentar gado. As plantações de soja estão entre as mais modernas - grandes, altamente mecanizadas e com os habituais insumos químicos. Essas plantações não são, de maneira alguma, atrasadas quando comparadas ao mesmo tipo de plantação nos USA. No nosso clima subtropical o agricultor tem a vantagem suplementar de poder plantar trigo, cevada, centeio ou aveia, mas também de fazer feno e silagem no inverno sobre o mesmo solo, mas poucas vezes o faz. Comparado ao que os nossos colonos faziam em solos similares, a produtividade é baixa, raramente mais do que três toneladas de grãos (total, verão e inverno) por hectare. O camponês, que produzia para alimentar a população local, facilmente produzia 15 toneladas de comida por hectare, diversificando com mandioca, batata-doce, batata inglesa, cana-de-açúcar e grãos, mais verduras, uva e todos os tipos de frutas, feno e silagem para o gado, além de porcos e galinhas. Mas ele não produzia PIB (produto interno bruto). O PIB só reflete fluxo de dinheiro, não leva em conta autosuficiência e mercadeio local. A conta do PIB interessa o banqueiro, o governo, as grandes corporações transnacionais, nada tem a ver com o bem estar das pessoas, da população. Quando estatísticas das Nações Unidas declaram que quase a metade da população mundial vive com menos de dois dólares por dia, isso leva a falsas conclusões. Ninguém viveria com dois dólares por dia se tivesse que comprar sua comida, roupa, utensílios no supermercado ou Shopping Center. No período áureo de nossa colônia no Rio Grande do Sul, anos trinta, o colono podia não ter um tostão no bolso, mas sempre tinha mesa farta, vivia muito bem.

Não obstante esta realidade, a política agrícola oficial tem sempre apoiado os grandes às custas dos camponeses. Centenas de milhares deles tiveram que desistir e partir para as cidades, freqüentemente para as favelas, ou mais para o norte em direção à floresta Amazônica. Uma devastação tremenda foi feita com dinheiro do Banco Mundial no estado de Rondônia, e os pequenos agricultores que lá foram assentados, não sabendo como cultivar nos trópicos e sem apoio, em geral fracassam, deixando para trás devastação, enquanto novas áreas da floresta são desmatadas. No Brasil central, o cerrado, o equivalente sul americano da savana africana, está hoje sendo quase totalmente destruído para dar lugar a mais plantações de soja, uma das quais cobrindo centenas de milhares de hectares contíguos. Na sua biodiversidade o cerrado é tão valioso quanto a floresta tropical, e eventualmente, até mais.

Num exemplo concreto também se argumenta que os índios camponeses em Chiapas, México, que estão agora lutando pela sua sobrevivência, rebelando-se contra o NAFTA (o Mercado Comum Norte Americano), são atrasados, eles produzem somente duas toneladas de milho por hectare comparado com seis nas plantações mexicanas modernas. Mas isso é somente parte do quadro, as plantações modernas produzem seis toneladas por hectare e é só. Mas os índios produzem uma colheita mista, entre seus pés de milho, que também servem para suporte de variedades de feijão que são trepadeiras, eles plantam legumes, abóbora, morangas,batata doce, batata inglesa,tomate e todo tipo de vegetais, frutas e ervas medicinais. A partir do mesmo hectare eles também alimentam seu gado e galinhas. Eles facilmente produzem quinze toneladas de alimento por hectare e tudo sem fertilizantes comerciais ou pesticidas e sem assistência dos bancos, governos ou corporações transnacionais.

A marginalização de tais pessoas é a continuação de um dos maiores desastres dos tempos modernos. Ao chegar nas favelas das cidades terão de comprar comida cultivada em monoculturas que são menos produtivas do que eram eles. Em última análise existe então menos comida e mais pessoas para alimentar. Existe excesso em alguns lugares e falta noutros. Freqüentemente sua terra é então tomada por criadores de gado que raramente produzem mais do que 50 quilos de carne/hectare/ano. Centenas de histórias similares poderiam ser contadas. No caso de Chiapas, cada vale tinha sua língua e cultura diferentes. Acima de todas as calamidades pessoais, quando a terra perde seus camponeses, temos genocídio cultural!

No caso da criação em massa de animais para carne e ovos, os métodos são absolutamente destrutivos, muito mais alimento para humanos é destruído do que produzido. As galinhas em seus tristes campos de concentração ou fábricas de ovos, eufemisticamente chamadas de “granjas” são alimentadas com rações “cientificamente equilibradas”, consistindo de grãos de cereais, soja, torta de óleo de palma ou de mandioca, muitas vezes com farinha de peixe. Conhecemos casos no Brasil onde sua ração contém leite em pó, proveniente do Mercado Comum Europeu... Isto as coloca então numa posição de competição com os humanos, nós as alimentamos com nossas lavouras. Um absurdo total se o propósito é contribuir para resolver o problema da fome mundial. Na agricultura tradicional as galinhas comiam insetos, minhocas, esterco, ervas, capim e restos de cozinha e de colheita, desta maneira aumentando a capacidade de sustento das terras dos agricultores para humanos. Agora elas a diminuem.

Nestes esquemas, a razão de transformação da ração em alimento humano é próxima de vinte para um. Precisa-se levar em consideração que metade do peso dos animais vivos – penas, ossos, intestinos – não é consumida por nós e também é preciso considerar que as rações desidratadas e concentradas com um alto consumo de energia até o máximo de 12% de água, enquanto a carne contém até 80%. Nos galpões de engorde, as operações mais eficientes usam em torno de 2,2Kg de ração para obter 1Kg de peso vivo, metade da qual é alimento humano. Então 2,2 para 1 se torna 4,4 para 1. Corrigindo o conteúdo de água: 4,4 vezes 0,88 e 1 vezes 0,2 obtém-se 3,87 para 0,2, igual a 19,36 para 1. Quando se trata de gado bovino confinado, como nos “feed lots” de Chicago, a relação é umas cinco vezes pior.

Mais recentemente, algumas de nossas granjas “aperfeiçoaram” um pouco esta razão incluindo na ração rejeitos de galinhas abatidas antes, desta maneira forçando-as ao canibalismo(!). Outro aspecto absurdo disto tudo: as rações “cientificamente equilibradas” não contém nada verde, o mesmo acontece com os porcos. Mas galinhas e porcos são vorazes consumidores de ervas, gramíneas, frutos, nozes e raízes. Em nossos experimentos com agricultura sustentável na Fundação Gaia também os alimentamos com plantas aquáticas, com grande sucesso – animais saudáveis, sem antibióticos, sem drogas, sem veterinários.

Além disso, nos campos de concentração de galinhas e fábricas de ovos, assim como nos modernos calabouços de porcos, as pobres criaturas vivem sob condições de extremo estresse.

É tempo de acabar com a mentira de que apenas a agricultura promovida pela tecnocracia pode salvar a humanidade da inanição. O oposto é verdadeiro.

É preciso uma nova forma de balanço econômico que, a medida que soma o que é chamado “produtividade” ou “progresso” na agricultura, também deduza todos os custos: as calamidades humanas, a devastação ambiental, a perda da diversidade biológica na paisagem circundante e a ainda mais tremenda perda de biodiversidade em nossos cultivares. Este segundo aspecto será agora enormemente agravado com a biotecnologia dominada pelas grandes empresas, como veremos mais adiante. E, mais importante e decisivo, a não sustentabilidade disto tudo. Temos o direito de agir como se fóssemos a última geração?

No caso de operações industriais envolvendo galinhas é fácil ver como tais métodos destrutivos se desenvolveram. Estou falando do que observo no sul do Brasil – o Brasil é um grande exportador de carne de galinha, principalmente para o Oriente Médio e Japão. A partir de esquemas muito simples, onde pequenos empresários individuais confinavam galinhas num galpão e as alimentavam com milho, o sistema coalesceu e cresceu até um ponto onde, atualmente, existem em torno de meia dúzia de companhias muito grandes e umas poucas pequenas. Os grandes abatedouros abatem e processam até centenas de milhares de galinhas por dia. Eles operam de acordo com regras impostas por eles, chamadas por eles “integração vertical”. O “produtor” assina um contrato onde aceita comprar todos os seus insumos, pintinhos, ração e drogas da companhia. Mesmo que ele seja um agricultor e tenha uma grande produção de grãos, ele está proibido de usá-la para alimentar suas galinhas. Ele é obrigado a comprar a ração pronta, mas pode vender o seu milho para a fábrica de ração que pertence à mesma companhia proprietária do abatedouro e da incubadeira que produz os pintos. Estes operam um tipo diferente de campo de concentração de galinhas onde os prisioneiros são galos e poedeiras, um galo para cada dez galinhas. As galinhas não estão em pequenas gaiolas como nas fábricas de ovos, elas podem se mover livremente dentro do galpão e pular para dentro de amplos ninhos para pôr os ovos. Nas operações de esteiras rolantes das fábricas de ovos, chamadas baterias, as pobres poedeiras estão confinadas, três em cada gaiola, sobre uma grade de arame e os ovos rolam para fora. Os pintos produzidos nestas incubadeiras não são mais de raças tradicionais de galinhas, eles são de marcas registradas e são híbridos. Assim como o milho híbrido, não podem ser reproduzidos com manutenção de características raciais.

Após comprar todos os seus insumos da companhia com a qual assinou contrato, ele poderá vender somente para a mesma. O produtor não é autorizado a vender a empresas concorrentes, estas não comprariam. Assim, ele pode ter a ilusão de ser um pequeno empresário autônomo, mas sua situação real é a de um operário com horas de trabalho ilimitadas, sem fins-de-semana, feriados nem férias e ainda tem que pagar sua própria previdência social. Se a grande companhia trabalhasse com empregados de carteira assinada, ela não poderia fazê-lo, seria muito caro e muito arriscado. Desta maneira deixam todos os riscos com o produtor: perda por doenças ou custos adicionais com drogas e antibióticos, choque de calor, um desastre comum durante os dias quentes de verão, quando centenas ou milhares de galinhas morrem nos abarrotados e mal ventilados galpões, e perdas durante o transporte. As galinhas que morrem nos caminhões da companhia no trajeto ao abatedouro são também descontadas. Os seus lucros também diminuem constantemente com o crescente preço dos insumos e a queda do faturamento com as vendas. A margem do produtor é tão apertada que, mesmo se tudo for bem, mas se for preciso alimentar os animais mais alguns dias, o lucro pode evaporar ou mesmo se transformar em perda. Esta é uma ocorrência comum. O abatedouro agenda suas viagens de coletas de galinhas prontas de acordo com sua própria conveniência. Mas se a companhia obtém lucros excepcionais no mercado de exportação, nada vai para o produtor...?

Portanto, os campos de concentração de galinhas não têm nada a ver com maior produtividade para ajudar a salvar a Humanidade da inanição – de fato, eles contribuem ao problema – mas eles concentram capital e poder pela criação de dependência.

Estes métodos não foram inventados pelos agricultores. É impensável que um agricultor em uma cultura camponesa sadia tivesse a idéia de alimentar massissamente suas galinhas com grãos, a menos que fossem grãos estragados, e isolá-las de sua fonte natural de alimentos, desta maneira desperdiçando parte da capacidade de sustentação do solo para humanos, destruíndo ao mesmo tempo parte de sua colheita. Estes métodos também não são resultado concatenado de uma conspiração pela tecnocracia. Tais esquemas crescem naturalmente a partir de uma “semente” inicial que pode ter tido uma intenção completamente diferente. Neste caso, como foi na agroquímica também, era o esforço de guerra. A conspiração cresceu depois ao longo do tempo. Durante a última Guerra Mundial, o governo americano iniciou o sistema de subsídios para a produção de grãos, o qual conduziu a enormes excedentes. Assim, as autoridades da agricultura procuraram “consumo não humano” para os grãos... Integração vertical” é somente um estágio momentâneo no processo de concentração de poder. Em breve eles encontrarão maneiras de banir – por meio de legislação especial – a criação de galinhas soltas (caipiras) por agricultores independentes. Já foi tentado, sem sucesso, mas, por dispositivos legais especiais, conseguiu-se tornar muito difícil para pequenos agricultores a venda de ovos no mercado aberto.

No caso do milho híbrido, também não existia conspiração no início, ela veio mais tarde. Geneticistas descobriram que pelo cruzamento de duas variedades super-puras de milho – variedades obtidas após oito a dez gerações de autofecundação – se obtém plantas de alta produtividade e uniformidade perfeita. Deve ter sido uma decepção quando descobriram que as variedades não eram estáveis. Após ressemeadura, as variedades dessegregam de acordo com as leis de Mendel. A nova colheita era caótica – pés de milho pequenos e grandes, uma espiga, muitas espigas, cores, formas e qualidades de grãos diferentes. Mas, do ponto de vista do vendedor de sementes, era uma verdadeira vantagem! O agricultor não mais poderia guardar sua própria semente, tinha que comprar sementes novas a cada ano. O vendedor não precisava sequer da proteção de uma patente.

Felizmente na maioria dos cultivos, especialmente grãos como trigo, cevada, centeio e aveia, este tipo de hibridização ainda não é economicamente viável para os geneticistas. Eles estão tentando com todas as culturas que podem. Funciona com galinhas. No sul do Brasil foi necessário fundar uma associação com o objetivo de preservar as raças tradicionais de galinhas. A maioria estão agora em perigo de extinção. Algumas já se foram. Somente as cepas registradas de galinhas híbridas não estão ameaçadas (enquanto durar a loucura dos campos de concentração de galinhas e fábricas de ovos). Quanto ao milho, quase todas as variedades tradicionais se foram. Se um agricultor quer plantar uma delas não ganha o crédito do banco. Apenas as variedade “registradas” são aceitas.

Atualmente, a manipulação genética direta, chamada biotecnologia, que opera a nível de cromossomo, permite que o especialista assuma o controle, tirando-o do agricultor. Mas, como a maioria dos produtos resultado da manipulação genética direta não dessegregam na reprodução, como no caso dos híbridos naturais, é preciso patentes. Retornaremos a este assunto.

Vejamos como nasceu a agroquímica.

Até final dos anos quarenta a pesquisa em agricultura visava soluções biológicas. A perspectiva era ecológica, embora mal se falasse em ecologia. Se esta tendência tivesse podido continuar, teríamos hoje muitas formas de agricultura sustentável, localmente adaptadas e altamente produtivas. Começando nos anos cinqüenta a indústria conseguiu fixar um novo paradigma - nas escolas, na extensão e pesquisa agrícolas. Vamos chamá-lo paradigma NPK + V. NPK corresponde a Nitrogênio, Fósforo, Potássio, o V significa veneno.

Os fertilizantes comerciais se tornaram um grande negócio depois da primeira guerra mundial. Logo no começo da guerra, o bloqueio Aliado cortou o acesso dos alemães ao salitre chileno, essencial para a produção de explosivos. O processo Haber Bosch para fixação de nitrogênio a partir do ar, mencionado acima, era conhecido mas ainda não tinha sido explorado comercialmente. Os alemães montaram então uma enorme capacidade de produção e conseguiram lutar por quatro anos. O que seria o mundo se este processo não tivesse sido conhecido? A primeira guerra mundial não teria realmente se desencadeado, não teria acontecido o Tratado de Versalhes, e portanto não teria havido Hitler...! Como uma tecnologia pode mudar o curso da história!

Quando a guerra acabou, havia enormes estoques e capacidade de produção mas não havia mais grande mercado para explosivos. A indústria então decidiu empurrar fertilizantes nitrogenados para a agricultura. Até então os agricultores estavam bastante satisfeitos com seus métodos orgânicos de manutenção e aumento da fertilidade do solo. O guano e o salitre chileno eram usados de maneira muito limitada, principalmente em cultivos muito especiais, especialmente em jardinagem intensiva. Os fertilizantes nitrogenados na forma de sais quase puros e concentrados, fertilizantes à base de nitrato e amônia, de certa forma viciam, quanto mais se usa mais se precisa usar. Logo se tornaram um grande negócio. Então a indústria desenvolveu um espectro completo, incluindo fósforo, potássio, cálcio, microelementos, mesmo sob a forma de sais complexos, aplicados na forma granulada, algumas vezes de avião.

A Segunda Guerra Mundial deu um grande empurrão para uma pequena e quase insignificante indústria de pesticidas e realmente a projetou para a produção em grande escala. Hoje o equivalente a centenas de bilhões de dólares em venenos são espalhados sobre todo o planeta. Durante a Primeira Guerra Mundial gás venenoso foi usado apenas uma vez, com efeitos devastadores para ambos os lados, e por isso nunca mais foram empregados. Durante a Segunda Guerra Mundial gases não foram aplicados em batalha, mas muitas pesquisas foram desenvolvidas. Bayer, entre outros, estava neste jogo. Ela desenvolveu os ésteres do ácido fosfórico. Depois da guerra eles tiveram uma grande capacidade de produção e estoques e concluíram que o que mata gente também mata os insetos. Fizeram novas fórmulas e as comercializaram como inseticida.

O DDT era conhecido como uma curiosidade de laboratório. Quando Müller, na Geigy, descobriu que matava insetos sem, aparentemente, afetar as pessoas, alertou as forças armadas americanas que estavam sofrendo com a malária no Pacífico, enquanto lutavam com os japoneses. Usaram-no de forma totalmente descuidada, convencidos de que era inofensivo, espalhando-o sobre paisagens inteiras e até dentro de casas e sob a vestimenta das pessoas.

Pouco antes do fim da Guerra no Pacífico um cargueiro americano estava a caminho de Manila com uma carga de potentes fitocidas (biocidas que matam plantas) do grupo 2,4-D e 2,4,5-T. A intenção era matar de fome os japoneses destruindo suas colheitas através da pulverização do veneno desde o ar. Tarde demais. O barco teve ordem de voltar antes de chegar. Outro grupo de americanos acabara de jogar as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, uma terrível história que todos nós conhecemos, e os japoneses assinaram o armistício. Mesma história: grande capacidade de produção, enormes estoques sem compradores. A substância foi reformulada como “herbicida” e descarregada nos agricultores. Depois, durante a guerra do Vietnam, as Forças Armadas Americanas impiedosamente espalharam o que eles chamaram de “Agente Laranja” (e outras cores) sobre milhões de hectares de floresta tropical, pretendendo fosse somente um desfoliante para tornar visíveis as forças inimigas. De fato, estas formulações continham grandes concentrações de 2,4,5-T que destruiam totalmente as florestas.

A indústria, querendo preservar em tempo de paz o que tinha sido um grande negócio em tempo de guerra, conseguiu dominar quase completamente a pesquisa agrícola para redirecioná-la para seus próprios objetivos. Conseguiu cooptar a pesquisa e extensão agrícola oficial, assim como escolas e, fazendo “lobby” a favor de legislação ou regulamentação adequadas e criando esquemas bancários de crédito (aparentemente) fácil, colocaram o agricultor numa posição na qual dificilmente sobravam outras alternativas. Atualmente, o paradigma agroquímico é aceito quase sem questionamentos nas escolas agrícolas, na pesquisa e extensão. A maioria dos agricultores acredita nele e, freqüentemente, quando marginalizada, se culpa a si mesma por sua incapacidade para competir.

Tudo isso veio a existir não como uma conspiração deliberada por pessoas de mentes diabólicas, desenvolveu-se e estruturou-se de oportunismo em oportunismo. A medida que uma nova técnica, processo ou regulamentação dava vantagem à alguém ou à alguma instituição, a respectiva tecnologia era promovida e ideologicamente consolidada. Alternativas que não encaixavam com as crescentes estruturas de poder eram combatidas, ignoradas ou desmoralizadas.

Agora sim, no caso da biotecnologia na agricultura, controlada por grandes corporações transnacionais, parece que temos uma verdadeira conspiração e que os danos serão muito mais irreversíveis do que os sofridos até agora.

O principal problema aqui não é tanto se nossos alimentos se tornarão de qualidade inferior e até nocivos – apesar de que isso possa vir a ocorrer – mas, novamente, trata-se de adicionar ainda mais estruturas de dependência, de dominação, sobre os agricultores que ainda restam e uma limitação de escolhas para o consumidor.

A fantástica diversidade de cultivares que tínhamos e ainda temos hoje, depois das tremendas perdas causadas pela “Revolução Verde” durante as últimas décadas, é o resultado da seleção, consciente e inconsciente, por parte dos camponeses ao longo dos séculos e dos milênios. Pensemos somente na família das crucíferas – repolho, couve chinesa, rabanete, nabo, mostarda, couve-flor, brócoli, colsa e muitos outros. Nenhum destes agricultores jamais solicitou patentes, registro ou certificação...

Agora, indústrias como a Monsanto querem que aceitemos sua manipulação desta riqueza preexistente, como a soja “Roundup-ready”, com o argumento de que eles apenas estão dando prosseguimento e acelerando este processo, contribuindo assim para a solução dos problemas para alimentar a Humanidade. Eles insistem mesmo de que não há outra saída. Mas eles sabem muito bem que existem outras alternativas, melhores, mais saudáveis, mais baratas.

Todo mundo sabe que a agricultura deve encontrar caminhos para se afastar dos venenos. Possuímos todos os conhecimentos necessários. Milhares de agricultores orgânicos em todo o mundo são prova disto. Com cultivares resistentes a herbicidas a indústria quer vender pacotes, semente + herbicida, obrigando o agricultor a usar herbicida, mesmo que ele não o necessite, e a usar o herbicida da respectiva empresa. No caso de cultivares com o infame gen “terminator” a conspiração é ainda mais óbvia. Com esse tipo de semente eles nem precisam se incomodar em solicitar patentes. Tudo isto não tem nada a ver com aumento de produtividade, é a culminação do gradativo processo de desapropriação dos agricultores, para transformar os sobreviventes em meros apêndices da indústria. Isto agravará a marginalização, a desestruturação social, a devastação ambiental e a perda da biodiversidade na Natureza e em nossos cultivos, agravará o problema da fome.



Tradução: Grupo PET/CAPES/UNISINOS – Geologia
Bolsistas: Tatiana Rennau dos Santos, Fabrício M. Ely, Daniel P. Travassos,
Paulo Martins Filho, Daniel B. Carvalho, Marina Heckeler, Tiago de Almeida,
Rafael L. Dessart e Iberê G. Schier.
Professor Orientador: Luiz Henrique Ronchi


Revisão da tradução com algumas atualizações:
José A. Lutzenberger e Lilly Charlotte Lutzenberger – março de 2000

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O circo do eu

Finalmente, as vaidades reprimidas, sufocadas, enrustidas, disfarçadas encontraram um lugar para se esbaldarem e se escancararem. Finalmente, “as pessoas comuns” conseguiram um meio pelo qual conquistaram a sempre ambicionada – e inatingível, na imensa maioria das vezes - visibilidade. De um momento para o outro, passaram do absoluto anonimato a que estavam submetidas  para o reino fascinante  da exposição, do mostrar-se. E isso ao mundo. Graças ao Face, ao Instagran, ao Google +, ao twitter  e outras tantas das denominadas redes sociais.

Todos, dos mais retraídos aos mais insinuantes, obtiveram a senha para ingressar no universo  glamoroso da exibição, ou seja, do existir validado, do existir que realmente interessa, mesmo aos aparentemente humildes, tímidos, ou retraídos. É o circo do eu.

Estamos todos na tela. Do computador, mas, com alguma sorte, podemos ser guindados à telona da TV. E isso é magnífico. Conquistamos a fama. Mesmo de maneira virtual. Se o real se mantém inacessível, todos – ou a imensa maioria – se satisfazem com o seu simulacro de egoísmo. Aparentemente, a fama ultrapassa os até então sedentamente perseguidos 15 minutos.

É claro: esse espetáculo narcísico não se configuraria sem o suporte das imagens, agora ao alcance de todos por meio de máquinas digitais, de aparelhos cuja origem primária era permitir o contato verbal, das filmadoras agregadas a qualquer suporte. Somos a mídia, o espelho de nós mesmos, e estamos radiantes.
Privacidade? Ora, quem a deseja? Por isso é encantador observar a reação mundial das “autoridades” às bisbilhotices da NSA, a agência de inteligência dos EUA. Ah, mas aí é uma questão de segurança nacional. Certo. Pois a segurança pessoal foi às favas. Deliberadamente, cada um pode se mostrar como quiser, por seus dados particulares, por pixels das fotos, por ideias, impressões, opiniões, comentários familiares, e as malditas mensagens altruístas, de auto-ajuda e sentenciadoras de verdades tão absolutas como simplórias. Algumas mobilizações, alguns protestos também ganham algum espaço. No entanto, a pegada mesmo é a imagem, inclusive, ou talvez principalmente, os auto-retratos.

O sujeito está comendo e imediatamente envia a imagem do prato que degusta, para as “redes sociais”, enquanto seu par não tira os olhos da tela do smartphone. Tudo se tornou visível e publicável. Não bastasse isso, somos seguidos por câmeras em todas as partes, que seguem nossos passos e nossos comportamentos. Sorrimos permanente.

Mais: o Google devassou ainda mais toda e qualquer intimidade, disponibilizando, com detalhes, a rua, a calçada, o lugar onde você mora. Ninguém mais pode se esconder. Pior ainda se usar celular ou GPS.
Enfim, o mundo se transformou em um grande programa Big brother, extrapolando a expectativas literárias do genial George Orwell, em seu livro 1984 – errou por alguns anos.

Essa história. Contudo,  não iniciou com o advento das novas tecnologias. Foi acentuada aos píncaros. Já que antes éramos devassados pelos governos. Porém, de forma involuntária, éramos, e continuamos sendo, obrigados a declarar tudo (obrigados inclusive a votar, democraticamente) sob pena de nos tornamo-nos párias da sociedade. Ou seja, a privacidade sempre foi uma falácia.

De seres humanos, pessoas, cidadãos, fomos aos poucos reduzidos a eleitores, consumidores, colaboradores, contribuintes, e chegamos ao ápice: agora somos perfis – virtuais, por excelência. Sem deixar de lado todos os atributos anteriores, principalmente o de consumidores, pois agora nos identificam e nos perseguem loucamente. Basta manifestarmos algum interesse por algum produto que uma enxurrada de publicidade dirigida do referido invade nossa tela.

Bem, termino por aqui. Preciso checar a minha linha do tempo, verificar meu status, as solicitações, curtir, comentar, compartilhar. E postar aquela imagem que tirei de mim mesmo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Um doce



Um doce! O desejo de saborear um doce tomou conta do centro do seu sistema nervoso, inundou as conexões sinápticas, invadiu os neurônios. Um doce qualquer. Porém, capaz de conter um teor de açúcar incomensurável, eloqüente ao ponto de não apenas salivar a boca, mas de arder ao ser premido entre a língua e o palato. Um doce de um sabor absoluto, tão pleno o suficiente para derramar lágrimas tal a intensidade da excitação provocada nas papilas degustativas.

A mulher, uma renomada geóloga da área petrolífera, a filha, uma disputada especialista em marketing e publicidade, fruto de uma acurada seleção genética, ficaram para trás - entocados em um prédio em ruínas, em uma outrora megalópole atrolhada de concreto e carros - talvez a uma distância tão imensa quanto esse delírio da realidade. Até mesmo porque, caso não fosse um gap virtual, Lumière certamente daria mais importância, no contexto da alucinação, às lágrimas. Encontraria um jeito de bebê-las, sem perder uma gota sequer.

Afinal, por um período já imensurável, estava em busca de água, poderia ser uma água qualquer, em uma empreitada derradeira. Lumière e aqueles que o viram partir sabiam de antemão o resultado: fracasso. Ele apenas resolvera tentar por estar bem incutida em seu perfil empreendedor a premissa de não se sentir um derrotado.

Agora, enquanto se arrastava em um terreno mesclado por pedregulhos e areia, nem de longe teve condições de considerar essa compulsão por um doce como o paradoxo que sempre norteara a sua vida, assim como a de seus iguais. A atávica contradição da evolução humana: a lógica do bom senso e a racionalidade irrefreável dos desejos e das ambições determinadas pela ideologia da superioridade sobre todos os elementos, autorizadora do fazer o que bem entender para saciar necessidades e vontades, reais e/ou engendradas.

E Lumière não era diferente. Quando ainda era um adolescente -  antes dos anos de inundação, das chuvas ácidas e do derretimento das geleiras, que antecederam os atuais anos tórridos, de sol inclemente, atmosfera sufocante, e fim das águas minimamente potáveis - chegara a refletir ocasionalmente sobre a existência, sobre o planeta, sobre a evolução da civilização, sobre a competição, sobre questões do tipo ter e o ser. Porém, logo ao entrar no mercado de trabalho, essas elucubrações desapareceram rapidamente, sem deixar vestígios. Ele se integrou, tornando-se um eficiente profissional da área de alimentação, especializado em transgenia vegetal

Não seria no momento em que avançava célere aos estertores da desidratação plena, que Lumière dedicaria seu delírio a assuntos relegados como anacrônicos; não, mesmo em desespero terminal, ele ambicionou o impossível. Talvez quisesse provar sua soberania humana desafiando o inevitável. Ou talvez desejasse tão somente abreviar a morte, tornando-a mais palatável.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Olhando do alto

Entre as infindáveis posturas, comportamentos e atitudes dos políticos/autoridades públicas brasileiras capazes de despertar a minha perplexidade está o hábito de olhar, verificar a desgraça do povo do alto. Quer dizer, quando ocorre uma calamidade, um desastre natural (no Brasil ainda incluem ações perpetradas pelo homem nesse conceito), eles se aboletam na cabine de um helicóptero ou até de um avião e partem para a “verificação, in loco”, dos danos, prejuízos e mortes. Examinam tudo do alto, soberanamente. Não colocam seus sapatos no barro, não sobem morro, não molham o lombo, não comem poeira. Ou, no mínimo, evitam ao máximo, até aa última hora.

Ninguém ainda questionou muito esses sobrevôos. Mas, quem o fizer, certamente receberá respostas previsíveis tipo “é preciso ter uma noção abrangente da tragédia; não seria possível ir por terra a apenas um ou outro lugar atingido e se ter uma avaliação mais exata da amplitude do dano” e assim por diante.

O fato é que, do alto, tudo é melhor, mais confortável, mais fácil. Primeiro, fazem o óbvio, o que a opinião pública (mídia) aguardava. Uma espécie de satisfação. E isso sem se sujar, sem um contato direto com as vítimas, sem falar com ninguém, sem a necessidade de dar explicações, sem sentir o odor de sangue, sem provocar ciúmes e descontentamentos entre as comunidades e locais eventualmente deixados de lado, em uma inspeção cara a cara com o problema - o que pode repercutir nas próximas eleições.

Vê-se o drama do alto e, depois, no gabinete refrigerado, diante de microfones, gravadores, câmeras e anotadores, anunciam-se as medidas reparadoras, sempre fruto de um “grande esforço prestativo imediato”. Além, é claro, das promessas de iniciativas para evitar a repetição do problema.

A cantilena falaciosa logo em seguida será esquecida, o proselitismo de ocasião será arquivado até uma próxima oportunidade, quando o teatro se repetirá.

A propósito de avião, político, contato com o povo, nunca vou esquecer um episódio que vivi nos tempos em que me submetia à condição de jornalista-assessor de imprensa.

Há alguns anos, em uma determinada campanha majoritária da província dos ximangos e maragatos, lá estava eu, em um pequeno jato, acompanhando quem eu assessorava que, por sua vez, acompanhava um integrante da chapa majoritária.

Depois de um inflamado encontro com eleitores de uma pequena localidade (dessas que alguns chamam de biboca), naturalmente regado a cerveja e a muito churrasco, embarcamos no bólido aéreo para retornarmos ao conforto do lar.

Mal nos acomodáramos nas apertadas poltronas e presenciei a cena. O tal candidato, antes de afivelar o cinto, ordenou ao seu segurança (pau prá toda obra) que providenciasse imediatamente o álcool e a tolha.

A ordem foi obedecida em um átimo. Com uma sofreguidão que jamais eu vira, o sujeito passou a esfregar as mãos com o líquido a 98 graus. Dava a impressão que tivera contato com contaminados terminais. Foi rápido e meticuloso na assepsia. Seus dedos se entrelaçaram, massagearam-se com certa violência.

Concluída a esfregação, enxugou seus membros. Visivelmente, seu semblante ficou mais relaxado. A seguir, passou a entabular, com naturalidade, uma conversa com com quem eu trabalhava, que também ficara, confessou depois, surpreso com a atitude desinfetante do outro político.

Ressalte-se que, à época, ainda não estava disseminada a prática de lavar as mãos com álcool, surgida após a ameaça da tal gripe suína (pode-se dizer, então, que o sujeito foi um pioneiro).

Ao desembarcarmos, consegui ficar sozinho com o segurança e perguntei a ele o que já imaginava em relação ao episódio. Ele apenas confirmou: “é sempre assim, depois de cumprimentar o pessoal, ele lava as mãos com álcool. Parece que tem medo de pegar doença, diz que não agüenta o cheiro”.

Por isso, acho que entendo um pouco o que está subjacente – ou nem tanto – ao ato de ver tudo do alto.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O (des) mentido


O desmentido tomou a todos de surpresa. Ninguém estava preparado para absorver o impacto da negação de certezas até então imutáveis, desde sempre dadas, incontestáveis. O desmentido não podia ser verdade (sic...), pois desferia um tiro mortal na própria verdade até então inabalável! O desmentido soava como um absurdo capaz de deixar o mais descrente prostrado. A partir dessa descoberta, tudo o mais passava a ser alvo da desconfiança. Os sintomas de desesperança se instalaram. A desorientação assumiu seu posto na atmosfera. Mesmo os mais descontraídos emitiam sinais de desconforto, de desassossego. A desilusão parecia contagiar indiscriminadamente, como uma espécie de vírus desassombrado.

Os sorrisos e a alegria desapareceram. Até as crianças davam mostras de desânimo, descartaram as brincadeiras. Os adultos já não se importavam em esconder seus desafetos, destratavam-se uns aos outros, desentendendo-se mais do que o habitual. Ninguém se preocupava em desfazer mal-entendidos. O destempero vinha à tona despudoradamente.

No princípio, alguns tentaram deslindar as causas do desmentido. Mas, após desesperadas reflexões, desistiram. No máximo, concluíram serem vítimas do desatino do destino. Bem diferente, aliás, do desenhado no imaginário dos otimistas mais destemidos. O futuro, na melhor das hipóteses, descambara morro abaixo.

Algo ficou evidente: todos estavam despreparados, seus sonhos foram desmontados, suas esperanças desativadas, suas existências desarrumadas. O despropósito de seus cotidianos fora desnudado. Suas convicções foram atravessadas pela espada do desdém.

Houve quem saísse correndo desabalado, tal como um desmemoriado, mas outros desabaram ao chão, desfalecidos pela inconformidade. Qualquer iniciativa revelava-se descabida. O descrédito em si e nos demais descortinava, mais cedo ou mais tarde, o desalento do espírito individual e coletivo. A desunião já podia ser desmascarada.

O desmentido, em última análise, tivera o efeito de uma explosão descomunal nas mentes e nos corações, cujo efeito como que desconectara desde desempregados até despudorados acumuladores de capital. Até então, o deslumbramento socioeconômico, o desenfreado avanço das tecnologias, as descobertas e inovações em todos os setores, despertavam a sensação do pleno domínio. A civilização só tinha um objetivo: desfrutar, assumindo seu desapreço desmedido com o contexto de vida no qual apenas estava inserida como uma parte do todo.

Nenhum desentranhar de consciências desativou ou desencorajou os desmandos desferidos pelo desbravamento civilizatório-tecnológico. A desintegração das mínimas condições de harmonia foi desdenhada. Chegava a ser desonroso não projetar mais desenvolvimento, não importando as conseqüências, as despesas impagáveis com o meio ambiente que se avolumavam por conta da devastação.

O desleixo com os despojos das ações humanas desfiguraram o mundo. Os desgovernos globais, despreparados e/ou desinteressados disfarçavam o desregramento com medidas simbólicas, paliativas no máximo. Os desembolsos designavam as legislações, nada despertava a desconstrução da terra, do céu, da água, da atmosfera, pois a ética tomara o caminho do desterro.

Fora do desempenho, tanto para indivíduos, quanto para instituições, para indústrias, tudo o mais não passava de desdouro. O consumo não concedia descontos. O desencaixe da ordem social era alvo de desprezo. Quem destoasse, estava despedido do convívio entre seus iguais, caia em desgraça, transformava-se em um desordeiro, um desajustado.

Dessa maneira, desindustrialização soava como uma desdita, uma desumanidade. A desertificação dos solos férteis criava cenários desoladores. O desmatamento só se desconjuntava nos discursos. A despoluição dos rios foi desleixada. A maioria permanecia desatenta, desinformada, ou até desejosa, à descarga de agrotóxicos na alimentação, não sentindo sequer um desconcerto ao desembalar ou desarrolhar remédios, medicamentos, crendo fielmente no desempenho da saúde enquanto produto. Nem mesmo as destemperanças climáticas, e suas desmedidas conseqüências, serviram como advertência.

O desencantamento final chegara ao ápice com as ações até então perpetradas. A desintoxicação já não era mais possível. A desintegração da existência descortinava-se. Para piorar, as inciativas alternativas logo passavam a incorporar o status quo e desintegravam-se. A vida estava destroçada. Destruída.

O desmentido, enfim, desfraldou a sentença: os homens não sobreviveriam ao desrespeito desnaturado à natureza.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A sueca (den svenska)

Depois de alguns dias deliciando-me com a arte e a beleza da capital da Toscana, segui rumo à Viena. Na capital austríaca, tive uma estadia, digamos, ao ritmo de Mozart. Dalí tomei o trem até Munique. Tudo transcorreu de maneira tranqüila. Afora alguns pequenos sobressaltos, nenhuma situação inusitada abalou a minha breve temporada na disciplinada e ao mesmo tempo transgressora cidade alemã.

Depois de quatro dias, segui viagem até Hamburgo, onde tomaria um trem para a Noruega. Na estação, já percebi uma leve animosidade por parte dos funcionários da Banhof. Um pedido de informação era respondido com rispidez, em um idioma ininteligível, ao menos para os meus ouvidos. Mas tudo bem, já estava acostumado, casos semelhantes ocorriam vez por outra, embora não fosse a regra.

No início da noite, aboletei-me em uma cabine já com outros quatro ocupantes. Logo à entrada, à direita, uma mulher morena, compleições acentuadas, pouca altura, por volta de 30 anos. Ao seu lado, um jovem de 20 e poucos anos, loiro, produto típico daquelas paragens. À frente dele, um tipo simpático, com mais de 50, roupas coloridas, pele clara também, postado junto à janela. Na poltrona do meio, outro rapaz, igualmente alvo, de pernas longas, magro, quem sabe 25 anos, com típicos trejeitos de turista “larguei tudo e vou conhecer o mundo”.

Sentei em frente à mulher, de pele mais escura, assim como eu, aliás. Poderia ser uma latino-americana ou, quem sabe, uma árabe, conjecturei. Quando o trem partiu, o sujeito mais velho da cabine iniciou uma conversa com os demais ocupantes. Trocando frases e palavras em inglês, soubemos que ele era um escritor, uma dessas pessoas que se aventuram mundo afora e depois escrevem tratados sugerindo roteiros.

O escritor falava animadamente quando, de maneira abrupta, a porta da cabine foi aberta. Uma alemã com jeito de halterofilista, olhar de psicopata, calças e casaco azul, camisa branca, quepe preto, pediu secamente pelos bilhetes.

Seguro, tranqüilo, apresentei a ela o carnê que me dava direito a viajar por 30 dias por toda a Europa. A alemã olhou, folheou, dirigiu um olhar ferino que me atingiu, desconcertando-me. Examinou-me da cabeça aos pés e começou a esbravejar balançado com a mão direita a passagem, indicando haver algum problema. Pelo visto, muito sério.

Eu simplesmente não entendia nada, absolutamente nada do que ela falava. Procurei argumentar, em inglês, sobre a validade do meu bilhete. Na medida em que eu abria a boca, ela ficava mais furiosa, dava a impressão de recusar qualquer explicação. Decididamente, não foi muito difícil compreender a situação: estava em uma enrascada, a funcionária do trem me ameaçava.

Em total desespero, olhei para os companheiros de cabine. Ninguém moveu uma sobrancelha. Todos, em silêncio, permaneceram impassíveis, distantes. Nem mesmo o afável escritor esboçou qualquer gesto.

Quando já estava imaginando como seria ficar preso na Alemanha, ouvi uma voz feminina. Era da única passageira presente na cabine. Sim, a mulher de cabelos pretos iniciara um diálogo com a irredutível fiscal. Após trocar algumas frases com a alemã, a companheira de viagem dirigiu-se a mim:

- Olha, você deveria ter pagado uma taxa antes de embarcar. Só o teu bilhete não vale para esta viagem. Você precisa pagar agora, ou então descerá na próxima estação e será encaminhado para a segurança da Banhof.

Meu Deus! Imaginei estar sonhando. Não era possível. Alguém falando português comigo! Era inacreditável, mas estava acontecendo! Respondi à minha interlocutora se ela sabia o quanto eu deveria pagar. Ela devolveu a pergunta à fiscal e voltou a falar comigo:

-100 dólares.

Prontamente, enfiei a mão por dentro da camisa, abri o zíper do bolsinho, retirei de lá uma nota de 100, e humildemente, cabisbaixo, estendi à fiscal, que em troca emitiu um comprovante em uma maquininha, entregando-me com um gesto rude. Bateu a porta, foi embora, Graças a Deus. E à minha providencial companheira de viagem.

Desabei na poltrona, aalvo pela mulher de cabelos pretos. À minha frente, ela sorria. Expus sem constrangimentos toda a minha gratidão, em português.

- Não se preocupe, está tudo bem.

Sim, agora estava tudo bem, graças a ela.

Mas quem seria a minha benfeitora, a minha fada protetora?

- Meu nome é Gunilla, sou sueca, moro em Estocolmo.

Procurei disfarçar a minha surpresa. Afinal, o meu imaginário estava povoado de estonteantes suecas louras.

Mas como você conhece a língua portuguesa, perguntei.

- Namorei um africano, de Angola.

É claro: Gunilla não era fluente no idioma de Camões, porém nos entendíamos bem. Ao longo da viagem, até chegarmos à costa, e tomarmos uma embarcação, com trem e tudo para a Noruega, nos conhecemos mais.

Gunilla, funcionária dos Correios da Suécia, era uma viajante inveterada., Vivia na estrada.

Combinamos de nos encontrarmos em Estocolmo, para onde eu iria depois de visitar Oslo. Ela me deu o seu telefone. Ao chegar à capital sueca, depois de me instalar em um agradável hotel, liguei para ela. Combinamos um encontro, em uma estação do metro, às 10 horas de um dia qualquer quase ensolarado.

Convidou-me para almoçar em sua casa, que ficava em um bairro da chamada cidade velha de Estocolmo, um lugar especial, construções antigas, de um tempo remoto. O apartamento da minha nova amiga ficava em um edifício cujas paredes tinham mais de um metro de espessura.

Gunilla preparou pequenos peixes fritos, acompanhados de batatas ao vapor. Enquanto comíamos, trocamos impressões, falamos das nossas vidas. Ela é artista, trabalha com tapeçaria, agora tem um site onde expõe sua arte.

Depois do almoço, fomos passear. Ao me deparar com uma discoteca, não resisti e comprei dois discos do Caetano Veloso para a minha anfitriã. Ao cair da tarde, despedimo-nos.

Dalí rumei até Copenhagen. Voltei a rever Gunilla três anos mais tarde, em Paris – ela se deslocou à capital francesa especialmente para se encontrar comigo. Tentei convencê-la a vir ao Brasil. Sem sucesso. Durante algum tempo, perdemos o contato. Em 2009, graças à internet, voltamos a conversar.

Nutro até hoje uma enorme gratidão à sueca que fala português, minha salvadora, hoje uma querida amiga. Que prometeu me visitar neste final de ano.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Andanças V: Choclo

Minutos após desembarcar no aeroporto de Lima, capital peruana, depois de um voo desde Cusco, fui tomado por uma intensa irritação, uma justificativa para fumar um pouco mais do que o habitual. O combinado com a agente de viagens, que dias antes me vendera um pacote para Machu Pichu, não estava acontecendo. Ou seja, não havia nem sinal do carro que deveria me apanhar e me levar até o hotel.

Enfurecido, fui até um telefone público e contatei com a agente, que conhecera no saguão do hotel. Expressando-me com o típico portunhol, vociferei minha inconformidade. A mulher - deveria ter cerca de 35 anos e alguns quilos a mais - disse-me para ficar tranqüilo, em poucos minutos o carro chegaria.

Dito e feito. Não se passaram 15 minutos e um sedan preto Toyota estacionou junto à área de desembarque. Ao volante, a mulher, ela mesmo, sorridente. Pedindo desculpas pelo transtorno, colocou minha bagagem no porta-malas do carro e convidou-me para embarcar.

Logo após sairmos do perímetro do aeroporto, perguntei à agente – não lembro seu nome – onde seria possível saborear uma típica comida peruana. A mulher me questionou se esse era o meu desejo realmente. Confirmei. Ela não falou mais nada. Seguimos.

Minutos depois, o Toyota ingressou em uma área quase desabitada. A mulher não falava nada. Eu, menos ainda. Talvez o mal-estar do desencontro ainda estivesse surtindo seus efeitos. Deduzi, porém, que ela estava me levando para algum restaurante.

O problema é que cada vez mais ingressávamos em uma zona deserta. Em ambos os lados da estrada asfaltada, dunas de pedras, uma paisagem planetária.

Os motores da paranóia ligaram automaticamente em meu cérebro. Comecei a ficar preocupado. Mas afinal, onde estávamos indo. Para fora do perímetro de Lima? Tentei demonstrar tranqüilidade, puxei assunto, a mulher respondeu monossilabicamente.

Enfim, passei a cogitar seriamente a hipótese de seqüestro. A mulher ficou enraivecida com a minha cobrança e resolveu se vingar, conjecturei. Talvez me entregando para o então ativo movimento terrorista local. Ou quem sabe eu estava prestes a ser vítima de um singelo latrocínio, sem a mínima chance de deixar rastros.

De repente, o cenário foi se alterando, ao poucos algumas casas emolduraram a paisagem. Logo percebi: não eram residências típicas da periferia de uma capital de um país latino-americano. Ao contrário, dispostas em grandes terrenos, as construções revelavam o bom poder aquisitivo de seus habitantes.

Até aí nada de mais. Afinal, não é tão incomum sequestradores investirem em esconderijos para abrigar suas vítimas.

Enquanto a paranóia corria solta em minha cabeça, o carro estacionou em frente a uma casa com um frondoso jardim, cercada de grades altas.

-Chegamos, disse a agente, desligando o veículo. Bem, você queria experimentar uma comida típica peruana, não é?

-Sim, sim, respondi.

Então estou te convidando para almoçar com a minha família.

Por um momento avaliei as possibilidades. Percorri com olhos argutos as redondezas, tentei verificar o interior da residência. Decididamente, eu podia relaxar.

Nunca, jamais, poderia imaginar o que me esperava.

Logo ao ingressar na habitação, a agente me apresentou ao seu marido, um simpático cabelos grisalhos, que me recepcionou com um largo sorriso na imensa sala onde degustava uma bebida.

Seguindo a minha a agente, atravessei a enorme casa, indo parar nos fundos, onde a água verde de uma piscina resplandecia ao sol do meio-dia peruano. Em volta do quadrilátero aquoso, um piso de pedras de um basalto rajado acomodava três ou quatro mesas, abrigadas sob um guarda-sol.
Duas jovens de biquíni, bem torneadas e bonitas, fizeram uma nova recepção. Eram as filhas da agente, cujo marido tinha ocupado até bem pouco tempo o cargo de ministro de Estado.

Eu estava extasiado. Não pelo lugar, pela comodidade, pelo conforto, e sim pela recepção, pelo carinho e simpatia dos peruanos.

Gastamos alguns minutos jogando conversa fora, dei a minha ficha, falei do Brasil, essas coisas.

A alguns metros das mesas, onde conversávamos animadamente, uma espécie de churrasqueira fumegava. Mas o cheiro não era de carne. Uma senhora mantinha guarda, examinando a cada instante o andamento da operação.

Quando ela se dirigiu às mesas, com uma travessa ainda exalando vapores, houve um ooohhh e palmas dos anfitriões.

O imenso prato continha enormes espigas de milho, o choclo, de suculentos grãos de um amarelo intenso. Um autêntico prato típico, seguido de outros, que não lembro bem. O choclo, porém, ficou gravado.

Após o lauto almoço, a agente apresentou-me a um senhor dos seus 50 anos. Era outro de seus empregados. Explicou-me: determinara a ele a tarefa de sair comigo para mostrar-me a capital. Só com um detalhe: como ela precisaria do Toyota, iríamos fazer o tour de fusca. E eu ia me importar?

Despedimo-nos, agradeci mil vezes. A agente me deu seu cartão – lamento até hoje não ter guardado com o devido cuidado. O marido me cumprimentou fraternalmente, as filhas também me afagaram.

Terminava uma experiência maravilhosa de convívio e iniciava outra. O senhor encarregado de me mostrar as belezas de Lima era simplesmente admirável. Um sujeito com pouca instrução, que transpirava bondade, gentileza, generosidade.

Durante o tempo em que percorremos as ruas de Lima,visitando algumas atrações da cidade, em mais ou menos quatro horas, consolidamos uma relação aparentemente iniciada há anos. Ele era incrível, uma pessoa, como se diz atualmente, do bem – mas não guardei o seu nome.

Aquele homem, já com alguns cabelos brancos, resumia a essência do caráter e do espírito do povo peruano, se é possível generalizar.

Conforme o combinado, no outro dia ele foi me buscar no hotel, pois me levaria até o aeroporto. Sua filha adolescente o acompanhava.

A despedida foi fantástica. Ele desabou a chorar como uma criança, enquanto me abraçava.

Por um momento, contudo, se recompôs, colocou a mão no bolso do casaco, e tirou um pequeno embrulho, entregando-me. Pediu desculpas por não poder me presentear com algo de mais valor. Mas garantiu: era de coração.

Rasquei o papel e vislumbrei um pratinho, do tamanho de um pires, decorado com dois pássaros azuis.

Abracei aquele homem simples, de uma intensidade afetiva difícil de encontrar, e igualmente não consegui conter a emoção.

Nunca mais reencontrei os meus amigos peruanos. No entanto, sempre me lembro deles com um grande carinho.