quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O circo do eu

Finalmente, as vaidades reprimidas, sufocadas, enrustidas, disfarçadas encontraram um lugar para se esbaldarem e se escancararem. Finalmente, “as pessoas comuns” conseguiram um meio pelo qual conquistaram a sempre ambicionada – e inatingível, na imensa maioria das vezes - visibilidade. De um momento para o outro, passaram do absoluto anonimato a que estavam submetidas  para o reino fascinante  da exposição, do mostrar-se. E isso ao mundo. Graças ao Face, ao Instagran, ao Google +, ao twitter  e outras tantas das denominadas redes sociais.

Todos, dos mais retraídos aos mais insinuantes, obtiveram a senha para ingressar no universo  glamoroso da exibição, ou seja, do existir validado, do existir que realmente interessa, mesmo aos aparentemente humildes, tímidos, ou retraídos. É o circo do eu.

Estamos todos na tela. Do computador, mas, com alguma sorte, podemos ser guindados à telona da TV. E isso é magnífico. Conquistamos a fama. Mesmo de maneira virtual. Se o real se mantém inacessível, todos – ou a imensa maioria – se satisfazem com o seu simulacro de egoísmo. Aparentemente, a fama ultrapassa os até então sedentamente perseguidos 15 minutos.

É claro: esse espetáculo narcísico não se configuraria sem o suporte das imagens, agora ao alcance de todos por meio de máquinas digitais, de aparelhos cuja origem primária era permitir o contato verbal, das filmadoras agregadas a qualquer suporte. Somos a mídia, o espelho de nós mesmos, e estamos radiantes.
Privacidade? Ora, quem a deseja? Por isso é encantador observar a reação mundial das “autoridades” às bisbilhotices da NSA, a agência de inteligência dos EUA. Ah, mas aí é uma questão de segurança nacional. Certo. Pois a segurança pessoal foi às favas. Deliberadamente, cada um pode se mostrar como quiser, por seus dados particulares, por pixels das fotos, por ideias, impressões, opiniões, comentários familiares, e as malditas mensagens altruístas, de auto-ajuda e sentenciadoras de verdades tão absolutas como simplórias. Algumas mobilizações, alguns protestos também ganham algum espaço. No entanto, a pegada mesmo é a imagem, inclusive, ou talvez principalmente, os auto-retratos.

O sujeito está comendo e imediatamente envia a imagem do prato que degusta, para as “redes sociais”, enquanto seu par não tira os olhos da tela do smartphone. Tudo se tornou visível e publicável. Não bastasse isso, somos seguidos por câmeras em todas as partes, que seguem nossos passos e nossos comportamentos. Sorrimos permanente.

Mais: o Google devassou ainda mais toda e qualquer intimidade, disponibilizando, com detalhes, a rua, a calçada, o lugar onde você mora. Ninguém mais pode se esconder. Pior ainda se usar celular ou GPS.
Enfim, o mundo se transformou em um grande programa Big brother, extrapolando a expectativas literárias do genial George Orwell, em seu livro 1984 – errou por alguns anos.

Essa história. Contudo,  não iniciou com o advento das novas tecnologias. Foi acentuada aos píncaros. Já que antes éramos devassados pelos governos. Porém, de forma involuntária, éramos, e continuamos sendo, obrigados a declarar tudo (obrigados inclusive a votar, democraticamente) sob pena de nos tornamo-nos párias da sociedade. Ou seja, a privacidade sempre foi uma falácia.

De seres humanos, pessoas, cidadãos, fomos aos poucos reduzidos a eleitores, consumidores, colaboradores, contribuintes, e chegamos ao ápice: agora somos perfis – virtuais, por excelência. Sem deixar de lado todos os atributos anteriores, principalmente o de consumidores, pois agora nos identificam e nos perseguem loucamente. Basta manifestarmos algum interesse por algum produto que uma enxurrada de publicidade dirigida do referido invade nossa tela.

Bem, termino por aqui. Preciso checar a minha linha do tempo, verificar meu status, as solicitações, curtir, comentar, compartilhar. E postar aquela imagem que tirei de mim mesmo.

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