quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Olhando do alto

Entre as infindáveis posturas, comportamentos e atitudes dos políticos/autoridades públicas brasileiras capazes de despertar a minha perplexidade está o hábito de olhar, verificar a desgraça do povo do alto. Quer dizer, quando ocorre uma calamidade, um desastre natural (no Brasil ainda incluem ações perpetradas pelo homem nesse conceito), eles se aboletam na cabine de um helicóptero ou até de um avião e partem para a “verificação, in loco”, dos danos, prejuízos e mortes. Examinam tudo do alto, soberanamente. Não colocam seus sapatos no barro, não sobem morro, não molham o lombo, não comem poeira. Ou, no mínimo, evitam ao máximo, até aa última hora.

Ninguém ainda questionou muito esses sobrevôos. Mas, quem o fizer, certamente receberá respostas previsíveis tipo “é preciso ter uma noção abrangente da tragédia; não seria possível ir por terra a apenas um ou outro lugar atingido e se ter uma avaliação mais exata da amplitude do dano” e assim por diante.

O fato é que, do alto, tudo é melhor, mais confortável, mais fácil. Primeiro, fazem o óbvio, o que a opinião pública (mídia) aguardava. Uma espécie de satisfação. E isso sem se sujar, sem um contato direto com as vítimas, sem falar com ninguém, sem a necessidade de dar explicações, sem sentir o odor de sangue, sem provocar ciúmes e descontentamentos entre as comunidades e locais eventualmente deixados de lado, em uma inspeção cara a cara com o problema - o que pode repercutir nas próximas eleições.

Vê-se o drama do alto e, depois, no gabinete refrigerado, diante de microfones, gravadores, câmeras e anotadores, anunciam-se as medidas reparadoras, sempre fruto de um “grande esforço prestativo imediato”. Além, é claro, das promessas de iniciativas para evitar a repetição do problema.

A cantilena falaciosa logo em seguida será esquecida, o proselitismo de ocasião será arquivado até uma próxima oportunidade, quando o teatro se repetirá.

A propósito de avião, político, contato com o povo, nunca vou esquecer um episódio que vivi nos tempos em que me submetia à condição de jornalista-assessor de imprensa.

Há alguns anos, em uma determinada campanha majoritária da província dos ximangos e maragatos, lá estava eu, em um pequeno jato, acompanhando quem eu assessorava que, por sua vez, acompanhava um integrante da chapa majoritária.

Depois de um inflamado encontro com eleitores de uma pequena localidade (dessas que alguns chamam de biboca), naturalmente regado a cerveja e a muito churrasco, embarcamos no bólido aéreo para retornarmos ao conforto do lar.

Mal nos acomodáramos nas apertadas poltronas e presenciei a cena. O tal candidato, antes de afivelar o cinto, ordenou ao seu segurança (pau prá toda obra) que providenciasse imediatamente o álcool e a tolha.

A ordem foi obedecida em um átimo. Com uma sofreguidão que jamais eu vira, o sujeito passou a esfregar as mãos com o líquido a 98 graus. Dava a impressão que tivera contato com contaminados terminais. Foi rápido e meticuloso na assepsia. Seus dedos se entrelaçaram, massagearam-se com certa violência.

Concluída a esfregação, enxugou seus membros. Visivelmente, seu semblante ficou mais relaxado. A seguir, passou a entabular, com naturalidade, uma conversa com com quem eu trabalhava, que também ficara, confessou depois, surpreso com a atitude desinfetante do outro político.

Ressalte-se que, à época, ainda não estava disseminada a prática de lavar as mãos com álcool, surgida após a ameaça da tal gripe suína (pode-se dizer, então, que o sujeito foi um pioneiro).

Ao desembarcarmos, consegui ficar sozinho com o segurança e perguntei a ele o que já imaginava em relação ao episódio. Ele apenas confirmou: “é sempre assim, depois de cumprimentar o pessoal, ele lava as mãos com álcool. Parece que tem medo de pegar doença, diz que não agüenta o cheiro”.

Por isso, acho que entendo um pouco o que está subjacente – ou nem tanto – ao ato de ver tudo do alto.

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