Lá estava eu no dito berço da civilização ocidental. Decepcionado com a escassez de monumentos e obras dos memoráveis tempos dos descendentes de Platão, entristecido ao me deparar com alguns pedaços de colunas e algumas cabeças de deuses dos (restos de) acervos dos museus locais, um pouco chateado com o nariz empinado dos nativos, misturei-me a uma multidão formada por pessoas de todas as partes do mundo. O sol de primavera era suficiente apenas para deixar os turistas animados na movimentada praça em frente ao parlamento da Grécia, em Atenas, na forma e no conteúdo muito distante, é natural, do ideal democrático que ali mesmo floresceu.
Caminhava sem compromisso, olhando a casa dos políticos gregos, apreciando o piso de cerâmica sem, porém, deixar de prestar atenção à minha volta. Viajante solitário, na ocasião, procurava ter mais cuidado para não viver qualquer situação desagradável. Já percebera: alguém sozinho em paragens estrangeiras sempre é mais visado, ao menos por policiais e seguranças, especialmente em aeroportos e terminais ferroviários.
Pois de repente notei a aproximação de um sujeito. Ele falava uma mistura de idiomas, talvez com uma prevalência do inglês. De início, surpreso, imaginei: ele está conversando com alguém próximo a mim. No entanto, não havia ninguém tão perto. O negócio era comigo mesmo.
Nunca mais esqueci as feições, os gestos, a maneira como aquele homem tentava dialogar comigo. Deveria ter entre 40 e 50 anos. Cabelos prateados (é, é isso mesmo), com talvez 1m75 de altura, relativamente forte, um rosto rosado de onde emergia um sorriso simpático acima de qualquer suspeita.
Tentei ser educado, sem deixa de demonstrar não ter qualquer interesse em levar adiante a conversa. O sujeito, porém, insistia. Começou fazendo referência ao clima agradável, à manhã ensolarada. Depois quis saber a minha nacionalidade.
Soltou uma exclamação quando disse ser brasileiro. Pareceu-me ter ficado mais à vontade, mais descontraído, enquanto agregava palavras em espanhol na sua verborragia.
A partir daí, iniciou-se uma verdadeira batalha. De um lado, aquela pessoa que exalava simpatia, querendo me convencer a me levar para um lugar que eu não conseguia entender bem do que se tratava. Eu, resistindo, agradecendo.
De nada adiantou. Quando me dei conta, estava caminhado ao lado do sujeito, cuja boca não se fechava nunca, entremeando sorrisos e frases incompreensíveis.
Às vezes, eu fazia menção de voltar atrás, recuava.Porém, ele retomava a carga. Em meio à profusão de frases em inglês, espanhol, e dialetos desconhecidos, decifrei algumas palavras: bar, brasileira. Sim, brasileira, no feminino.
Com mesuras, o “anfitrião” seguia abrindo caminho entre a multidão, levando-me para o desconhecido.
Confesso: estava consciente do risco de continuar ao lado do sujeito, indo não sabia para onde.
Em última análise, bastava tomar uma postura intransigente, definitiva: não, não quero seguir, ponto final.
Mas, mesmo tendo noção do perigo, continuei seguindo o grego. Talvez por um enfeitiçado por um efeito dionisíaco.
Após alguns minutos, chegamos a uma espécie de galeria, com lojas enfileiradas uma ao lado da outra, divididas por um corredor pavimentado. Logo percebi: o fim da jornada chegara.
Em um impulso, dei dois ou três passos para trás. O grego, contudo, não estava disposto a perder a presa.
Com delicadeza, mas resoluto, abraçou-me como um pai abraça um filho desorientado.
Então desisti: seja o que Deus, ou melhor, os Deuses quiserem.
Avançamos galeria adentro. Paramos em frente à terceira loja.
Diferentemente das outras, não havia vitrine, produtos expostos. Apenas uma porta de madeira maciça, talvez arrancada da floresta amazônica. Ao seu lado, um aparelho de ar condicionado resfolegava.
Entramos. Minhas suspeitas se confirmaram. Tratava-se de um bar de encontros, um pequeno bordel, nada muito diferente dos similares no Brasil. Penumbra, música, fumaça de cigarro, mesinhas, mulheres.
O grego, cujas intenções agora se revelavam por inteiro, chamou uma das mulheres espalhadas pelo ambiente, perdidas na penumbra. Não recordo o nome dela. Embora fosse especial, como o meu anfitrião insistia em repetir.
Uma brasileira! Por isso o grego insistiu tanto comigo. Imaginou, na sua experiência de cafetão o inevitável padrão: um macho brasileiro naturalmente gostaria de transar com uma compatriota sob os olhares dos deuses do monte Olimpo.
A mulher, baixa, aparentando uns 30 anos, foi chegando perto do compatriota, a esta altura completamente apavorado. Cumprimentou-me com um sorriso mecânico, disse o seu nome, falou ter nascido mineira, convidou-me para sentar em uma mesa.
Por medo ou por interferência divina, sai da letargia, reagi. Mas com muita parcimônia, com cautela, não revelando a inquietude íntima. Afinal, estava em um terreno minado. Delicadamente manifestei o desejo de ficar junto ao balcão, atrás do qual se movimentava um mal encarado barman.
Analisei rapidamente a situação. Transar com a conterrânea, nem pensar. Tudo poderia acontecer no quarto, ainda mais que eu era uma espécie de homem-bomba-otário. Só que ao invés de explosivos, carregava, junto ao corpo, mais precisamente nos flancos e na barriga, dois bolsos de pano presos a elásticos, onde estavam acondicionados cheques de viagem, dois mil dólares em dinheiro, passaporte, carnê de passagens de trem, bilhete do avião.
Uma vítima perfeita.
Senti o suor brotar da testa. Precisava fazer alguma coisa. Perguntei à brasileira se ela gostaria de beber algo. Ao mesmo tempo, pedi uma bebida, um suco de frutas sem álcool, para estupefação do barman, que já servira um drink “não-sei-do-quê” à mulher.
Tomei minha porção em dois ou três goles. Ressalte-se: fiquei atento ao preparo, cuidando para ver se o mal-encarado não colocava algum pozinho no copo.
A melhor estratégia seria deixar rapidamente o local. A mulher já se insinuava, acariciando o meu braço, fazendo caras e bocas. Recusei com delicadeza os afagos argumentando estar com muita pressa, infelizmente não havia como ficar.
Pedi a conta. Foi uma fortuna. De qualquer modo, um gasto calculado: vão-se os anéis, ficam os dedos.
E então chegou um momento, digamos, de adrenalina a mil. Despedi-me da mulher. O cafetão não estava mais na área, provavelmente voltara à praça, em busca de novos incautos. Meu medo era encontrar a porta trancada. Mas ela abriu.
Deixei a galeria em um átimo, ganhei a rua, o sol continuava brilhando. Meu coração queria sair nela boca, as pernas começaram a tremer.
Sem deixar de, vez por outra, olhar para trás, caminhei como um maratonista digno das antigas olimpíadas. Boca seca, cabeça em frangalhos. Não parei enquanto não cheguei ao hall do hotel onde estava hospedado.
Uma jovem, dos seus 20 e poucos anos, sentada em uma poltrona, lendo um jornal, notou minha entrada esbaforida. Apesar da circunstância, ainda tive forças para perceber o quanto ela era linda, uma deusa grega. Pronta para me sacrificar no altar do amor alertou-me a minha confusa mente.
Com a sutileza da sedução, ela me olhou de forma penetrante. Desviei o olhar, fixei-me nos botões do elevador. Quando a porta abriu, entrei acelerado.
Nenhuma Diana seria capaz, àquela altura, de convencer-me sobre as delícias das alcovas do Olimpo.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Andanças 2: Kiwi
Não havia a movimentação corriqueira dos horários de pico, tipo final ou início das jornadas de trabalho. Nenhuma leva de gente apressada dificultava o trânsito pelos corredores azulejados do metro de Madri naquele dia qualquer dos estertores da década de 80. Aqui e ali, em pontos estratégicos, os habituais músicos alugavam seu talento não reconhecido por algumas moedas.
De repente, vejo um sujeito postado atrás de um pequeno caixote, segurando em cada uma das mãos embalagens de plástico entrelaçado, onde estavam acondicionados diversos exemplares de uma espécie de cilindro com cerca de 3 a 4 centímetros de comprimento e uma circunferência de três centímetros, mais ou menos isso. Uma superfície que parecia áspera, aparentemente povoada de diminutos fios, pintada de um verde esmaecido, só contribuía para aumentar o mistério.
Não resisti. Aproximei-me do vendedor e expus com franqueza a minha ignorância. Afinal, o que era aquilo? Sem esboçar um sorriso de tolerância compreensiva, o rapaz respondeu com uma frase curta: é uma fruta. Completou dizendo o nome da respectiva, mas não entendi. Pareceu-me algo semelhante a quici, quili. Apurei os ouvidos, insisti, forçando-o a repetir: quivi, quivi – ou seja, o hoje disseminado kiwi..
Ah, bom! E quanto custa, perguntei. O vendedor falou um valor em pesos – o euro ainda não era a moeda corrente de países, como a Espanha, que passaram a integrar a União Europeia alguns anos depois.
Achei muito caro. Voltei à carga: mas não é possível vender apenas dois ou três frutos, ao invés do pacote inteiro? Com um sonoro não como resposta, não me restou outra alternativa a não ser desistir de tocar, de conhecer, de saborear aquela fruta intrigante.
Chateado, porém conformado, tratei de aguardar o trem que me levaria à estação do museu do Prado. Caminhei uns 50 metros até chegar à plataforma onde o bólido pararia, depois de emergir da boca escura do túnel.
Levei um susto quando senti um toque em meu ombro esquerdo. Dei um passo à frente, virei o corpo, fazendo pose de quem pretende desafiar a surpresa. Medo tolo. Não havia beligerância por parte do autor, ou melhor, da autora do sutil cutuco. Fiquei um pouco encabulado.
Ela sorria. Deveria ter vinte e poucos anos, quem sabe um metro e sessenta de altura, olhos escuros, cabelos pretos. Vestia um casaco de lã marrom, listas brancas. Uma luva, também marrom, cobria a mão esquerda, enquanto a direita, sem luva, segurava um um embrulho pardo.
Tudo foi muito rápido – rápido demais.
Sempre sorrindo, ela estendeu a mão com o pacote em minha direção. E disse:
Para usted!
De forma mecânica, segurei o invólucro, olhei no seu interior, identifiquei quatro daqueles frutos estranhos que tanto aguçaram a minha curiosidade e que, por avareza, não havia comprado minutos antes.
Fiquei pasmo, sem palavras, olhava para os frutos, para a jovem.
Ela notou o meu embaraço; para abreviá-lo, ela recuou dois passos, acenou com a mão direita, despedindo-se.
Certamente a jovem presenciara o meu colóquio atrapalhado com o vendedor, percebera a minha curiosidade, talvez tenha imaginado que eu não fizera a compra por falta de dinheiro. E então resolveu me presentear com quatro kiwis.
Antes de embarcar no trem, ainda a vi na plataforma em frente a que eu estava. O valo em cuja superfície se assentam os trilhos nos separava. Acenei, sorri. Ela retribuiu.
Nunca mais a vi. Nunca mais a esqueci. Desde então, o kiwi entrou na minha vida. Para não sair.
De repente, vejo um sujeito postado atrás de um pequeno caixote, segurando em cada uma das mãos embalagens de plástico entrelaçado, onde estavam acondicionados diversos exemplares de uma espécie de cilindro com cerca de 3 a 4 centímetros de comprimento e uma circunferência de três centímetros, mais ou menos isso. Uma superfície que parecia áspera, aparentemente povoada de diminutos fios, pintada de um verde esmaecido, só contribuía para aumentar o mistério.
Não resisti. Aproximei-me do vendedor e expus com franqueza a minha ignorância. Afinal, o que era aquilo? Sem esboçar um sorriso de tolerância compreensiva, o rapaz respondeu com uma frase curta: é uma fruta. Completou dizendo o nome da respectiva, mas não entendi. Pareceu-me algo semelhante a quici, quili. Apurei os ouvidos, insisti, forçando-o a repetir: quivi, quivi – ou seja, o hoje disseminado kiwi..
Ah, bom! E quanto custa, perguntei. O vendedor falou um valor em pesos – o euro ainda não era a moeda corrente de países, como a Espanha, que passaram a integrar a União Europeia alguns anos depois.
Achei muito caro. Voltei à carga: mas não é possível vender apenas dois ou três frutos, ao invés do pacote inteiro? Com um sonoro não como resposta, não me restou outra alternativa a não ser desistir de tocar, de conhecer, de saborear aquela fruta intrigante.
Chateado, porém conformado, tratei de aguardar o trem que me levaria à estação do museu do Prado. Caminhei uns 50 metros até chegar à plataforma onde o bólido pararia, depois de emergir da boca escura do túnel.
Levei um susto quando senti um toque em meu ombro esquerdo. Dei um passo à frente, virei o corpo, fazendo pose de quem pretende desafiar a surpresa. Medo tolo. Não havia beligerância por parte do autor, ou melhor, da autora do sutil cutuco. Fiquei um pouco encabulado.
Ela sorria. Deveria ter vinte e poucos anos, quem sabe um metro e sessenta de altura, olhos escuros, cabelos pretos. Vestia um casaco de lã marrom, listas brancas. Uma luva, também marrom, cobria a mão esquerda, enquanto a direita, sem luva, segurava um um embrulho pardo.
Tudo foi muito rápido – rápido demais.
Sempre sorrindo, ela estendeu a mão com o pacote em minha direção. E disse:
Para usted!
De forma mecânica, segurei o invólucro, olhei no seu interior, identifiquei quatro daqueles frutos estranhos que tanto aguçaram a minha curiosidade e que, por avareza, não havia comprado minutos antes.
Fiquei pasmo, sem palavras, olhava para os frutos, para a jovem.
Ela notou o meu embaraço; para abreviá-lo, ela recuou dois passos, acenou com a mão direita, despedindo-se.
Certamente a jovem presenciara o meu colóquio atrapalhado com o vendedor, percebera a minha curiosidade, talvez tenha imaginado que eu não fizera a compra por falta de dinheiro. E então resolveu me presentear com quatro kiwis.
Antes de embarcar no trem, ainda a vi na plataforma em frente a que eu estava. O valo em cuja superfície se assentam os trilhos nos separava. Acenei, sorri. Ela retribuiu.
Nunca mais a vi. Nunca mais a esqueci. Desde então, o kiwi entrou na minha vida. Para não sair.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Andanças (1): sapatinho de bebê cubano
Ah, as viagens! Nada melhor pode existir. Conhecer novos lugares, pessoas, culturas, hábitos. Apenas as viagens nos proporcionam situações inusitadas, surpreendentes. Para o bem e para o mal. De certa forma, quem viaja busca um pouco do inesperado. Afinal, ao deixar para trás os limites dos territórios conhecidos, perde também a pretensa sensação de controle. Quando estamos além das fronteiras da nossa rotina, sujeitamo-nos a sermos alvos, agentes de experiências, de vivências incomuns ao cotidiano de sempre. Ficamos à mercê do acaso, às vezes do ocaso, enquanto cumprimos eventuais roteiros pré-definidos, só para fazer de conta que estamos segurando as rédeas do destino. No fundo, ansiamos pela expectativa de sentir certo medo, aguardamos o receio do desconhecido, buscamos o imprevisível.
Ou seja, queremos o diferente, quem sabe para injetarmos algumas poções de adrenalina no nosso dia a dia. Talvez para sentirmo-nos um pouco mais vivos, para quebrar a melancolia de existências condicionadas, mesmo decoradas pela aura da felicidade até.
Além do mais, somos humanos, curiosos, insatisfeitos, desejosos de sempre conhecer mais, de sempre enfrentar desafios, aventuras, de colocarmo-nos à prova, ou apenas para podermos nos exibir diante dos outros, ou de nós mesmos.
E isso mesmo quando a viagem está relacionada às previsíveis férias do trabalho, “para recarregar as pilhas”, aos dias de veraneio em paragens nem tão distantes do lugar onde passamos a maior parte dos dias do ano, gastando horas em frente à televisão, ao monitor, no trânsito, em bares, restaurantes, cinemas, obedecendo cordialmente os ditames de uma vida programada para consumir.Não importa qual a razão, o motivo. A viagem sempre poderá nos oferecer o inusitado. Talvez como turistas, descompromissados garimpeiros de novos cenários, estejamos mais suscetíveis aos eventos que extrapolam o previsível.
Por isso tenho algumas historinhas, a começar por aquela registrada durante a minha primeira viagem internacional. Antes já estivera, a trabalho, no Uruguai. Mas quando, em janeiro de 1989, embarquei rumo à ilha de Cuba, fiz a minha verdadeira estréia, digamos, descompromissada, em terras estranhas. A escolha pela ilha não decorreu de um interesse ideológico de cultuar o então ativo Fidel Castro. É que, à época, eu namorava uma frenética militante de esquerda.
Episódio 1: sapatinho de bebê
Deixei rapidamente o salão do restaurante do hotel onde estava hospedado em Havana. Um prédio antigo, remanescente dos tempos pré-revolução. Sentia-me um pouco nauseado: além da atmosfera impregnada por um odor de mofo, a comida era horrível, à base de carne de porco insossa, sem qualquer preparo (temperos).
Tomei o elevador sozinho, sacolejei até o andar do meu apartamento. Entrei e fui direto ao banheiro, lavar o rosto. Recompus-me um pouco, dirigi-me à ampla janela que emoldurava a paisagem urbana da capital cubana, tendo ao fundo o verde do mar caribenho. Acendi um cigarro. Quase me afoguei com a fumaça ao perceber a porta abrindo.
Girei o corpo rapidamente, enquanto pensamentos aterrorizantes povoaram minha mente.Deparei-me com uma mulher expressando também certo espanto, talvez com a minha reação de visível pavor. Os trajes a denunciavam: era uma camareira do hotel, ao menos tudo indicava. Notei de imediato sua barriga proeminente, sem dúvida estava grávida. Deveria ter menos de 30 anos, morena, olhos escuros, uma típica cubana.
-Senhor, senhor, perdoe-me pela intromissão, disse a mulher em um espanhol palatável.
Relaxei um pouco, abri a guarda, esbocei um sorriso, percorri o quarto com o olhar, querendo indicar que estava tudo em ordem, que não precisava de seus préstimos. Ao abrir a boca para agradecer e dispensá-la, ela se aproximou. Quase sussurrando, perguntou se poderia pedir um grande favor, mas não esperou pela resposta.
Acariciando a barriga com a mão direita, continuou falando. Esperava dar a luz dentro de dois meses. Cabisbaixa, pediu-me para comprar, nas lojas onde só turistas podiam entrar, um par de sapatinhos, feitos de crochê, desses habitualmente utilizados por recém-nascidos. Fora desses estabelecimentos, explicou, não havia como conseguir, a não ser um produto confeccionado com um material semelhante ao utilizado em sacos de aniagem.
Segurando algumas moedas nas mãos, seu pedido mais pareceu um apelo desesperado.
Em nenhum momento cheguei a cogitar em negar-me a atendê-la. Admito ter ficado comovido, muito comovido.
Recusei o pagamento antecipado. Enquanto ela guardava as moedas no bolso do avental branco, ela sorriu. Parecia aliviada.
Combinamos, então, um encontro para o dia seguinte, logo após o almoço, no mesmo local. A mulher retirou-se, não sem antes agradecer várias vezes.
Assim que a porta se fechou, as forças ocultas da paranóia entraram em ação. Passei a elucubrar: afinal, não seria tudo parte de um esquema para me incriminar. De tão absurda, abandonei a tese sem muito esforço racional.
Sentado no sofá, olhando para as paredes do apartamento, comecei a fazer considerações sobre a crueza do episódio, o destemor singelo de uma mãe, a angústia, o sofrimento daquela mulher, cujo nome, aliás, eu não sabia. Como um desejo tão simples, porém com uma dimensão emocional infinita, não podia ser realizado? Como uma vontade de uma mãe trabalhadora era passível de restrições? Poderia aquela humilde mulher cubana, do início dos anos 90, ser rotulada como uma torpe consumidora capitalista?
Decidi não esperar mais um segundo, resolvi agir. Contei à minha companheira de viagem o ocorrido, pedi sua colaboração. Entre espantada e resignada, ela me explicou melhor as nuances dos sapatinhos de bebê. Afinal, nunca tivera familiaridade com as coisas relacionadas à maternidade.
Assim, cerca de uma hora após conversar com a camareira, lá estava eu rumando em direção a uma das lojinhas freeshop, implantadas em diferentes pontos estratégicos da ilha, uma rentável fonte de recursos para o Estado.
Destinadas rigorosamente apenas aos estrangeiros, restava aos nativos espiar, por entre as paredes de vidro dos pequenos antros do consumo incrustados em meio ao cotidiano de escassez, as maravilhas do capitalismo.
Cubano dentro desses ambientes, só se fosse para trabalhar, como balconista.
Em meio a equipamentos eletrônicos, perfumes, quinquilharias diversas (poucas ainda de origem chinesa), encontrei os sapatinhos. Comprei dois pares, um azul, outro predominantemente cinza.
Não me lembro de outros detalhes, como preço, origem. Só recordo da retirada apressada da loja, o caminhar célere pelas ruas, até chegar ao hotel. A sensação era de estar cometendo uma ilegalidade, um crime. Chegando ao apartamento, escondi “o produto” no fundo mala, afogando-o com camisas, calças, cuecas e meias.
Na manhã seguinte, acordei ansioso, feliz, cheio de orgulho, sentindo-me um grande benfeitor. Embora ainda vez por outra assaltado por uma pontinha de receio. Cenas com imagens de homens fardados, truculentos, revistando minha mala, enquanto a camareira, acorrentada, assistia a tudo impassível, rodavam com insistência na minha tela íntima.
As horas demoraram a passar. Almocei sem tocar nos pratos quentes, só comi a entrada, pão e manteiga. Livrei-me do porco sem gosto.
Por volta de 13h já estava no apartamento, fumando, olhando pela janela.
Então bateram à porta. Estranhei, pois da vez anterior a camareira utilizara a chave mestra. Mas fui abrir. Para meu alívio, era ela, sozinha.
Com um sorriso um tanto encabulado, a futura mamãe agradeceu o convite para entrar. Fui até a mala, retirei o tesouro, devidamente embalado para presente, coloquei em suas mãos, fazendo sinais para ela desembrulhar.
Nunca mais vou esquecer aquele olhar, aquela expressão facial.
A camareira ficou profundamente emocionada ao tocar os sapatinhos. Um breve soluço antecedeu a queda de duas lágrimas pela face morena.
Por alguns instantes, com vigor, ela apertou os sapatinhos junto ao peito. A seguir, tratou de guardá-los, enfiando-os embaixo do avental, posicionando-os no lado direito da barriga. Tirou um elástico do bolso e envolveu o tesouro, fazendo-o integrar-se à barriga.
Agradeceu, agradeceu, tentou novamente pagar, recusei com delicadeza. Abraçamo-nos por um instante, desejei-lhe sorte, ela se retirou. Novamente esqueci-me de perguntar o seu nome.
Acendi outro cigarro. Voltei à janela. Vislumbrei o mar esverdeado. A estonteante beleza natural podia ser apreciada sem restrições por todos, sem distinção. Inclusive pelos nascidos na ilha.
Ou seja, queremos o diferente, quem sabe para injetarmos algumas poções de adrenalina no nosso dia a dia. Talvez para sentirmo-nos um pouco mais vivos, para quebrar a melancolia de existências condicionadas, mesmo decoradas pela aura da felicidade até.
Além do mais, somos humanos, curiosos, insatisfeitos, desejosos de sempre conhecer mais, de sempre enfrentar desafios, aventuras, de colocarmo-nos à prova, ou apenas para podermos nos exibir diante dos outros, ou de nós mesmos.
E isso mesmo quando a viagem está relacionada às previsíveis férias do trabalho, “para recarregar as pilhas”, aos dias de veraneio em paragens nem tão distantes do lugar onde passamos a maior parte dos dias do ano, gastando horas em frente à televisão, ao monitor, no trânsito, em bares, restaurantes, cinemas, obedecendo cordialmente os ditames de uma vida programada para consumir.Não importa qual a razão, o motivo. A viagem sempre poderá nos oferecer o inusitado. Talvez como turistas, descompromissados garimpeiros de novos cenários, estejamos mais suscetíveis aos eventos que extrapolam o previsível.
Por isso tenho algumas historinhas, a começar por aquela registrada durante a minha primeira viagem internacional. Antes já estivera, a trabalho, no Uruguai. Mas quando, em janeiro de 1989, embarquei rumo à ilha de Cuba, fiz a minha verdadeira estréia, digamos, descompromissada, em terras estranhas. A escolha pela ilha não decorreu de um interesse ideológico de cultuar o então ativo Fidel Castro. É que, à época, eu namorava uma frenética militante de esquerda.
Episódio 1: sapatinho de bebê
Deixei rapidamente o salão do restaurante do hotel onde estava hospedado em Havana. Um prédio antigo, remanescente dos tempos pré-revolução. Sentia-me um pouco nauseado: além da atmosfera impregnada por um odor de mofo, a comida era horrível, à base de carne de porco insossa, sem qualquer preparo (temperos).
Tomei o elevador sozinho, sacolejei até o andar do meu apartamento. Entrei e fui direto ao banheiro, lavar o rosto. Recompus-me um pouco, dirigi-me à ampla janela que emoldurava a paisagem urbana da capital cubana, tendo ao fundo o verde do mar caribenho. Acendi um cigarro. Quase me afoguei com a fumaça ao perceber a porta abrindo.
Girei o corpo rapidamente, enquanto pensamentos aterrorizantes povoaram minha mente.Deparei-me com uma mulher expressando também certo espanto, talvez com a minha reação de visível pavor. Os trajes a denunciavam: era uma camareira do hotel, ao menos tudo indicava. Notei de imediato sua barriga proeminente, sem dúvida estava grávida. Deveria ter menos de 30 anos, morena, olhos escuros, uma típica cubana.
-Senhor, senhor, perdoe-me pela intromissão, disse a mulher em um espanhol palatável.
Relaxei um pouco, abri a guarda, esbocei um sorriso, percorri o quarto com o olhar, querendo indicar que estava tudo em ordem, que não precisava de seus préstimos. Ao abrir a boca para agradecer e dispensá-la, ela se aproximou. Quase sussurrando, perguntou se poderia pedir um grande favor, mas não esperou pela resposta.
Acariciando a barriga com a mão direita, continuou falando. Esperava dar a luz dentro de dois meses. Cabisbaixa, pediu-me para comprar, nas lojas onde só turistas podiam entrar, um par de sapatinhos, feitos de crochê, desses habitualmente utilizados por recém-nascidos. Fora desses estabelecimentos, explicou, não havia como conseguir, a não ser um produto confeccionado com um material semelhante ao utilizado em sacos de aniagem.
Segurando algumas moedas nas mãos, seu pedido mais pareceu um apelo desesperado.
Em nenhum momento cheguei a cogitar em negar-me a atendê-la. Admito ter ficado comovido, muito comovido.
Recusei o pagamento antecipado. Enquanto ela guardava as moedas no bolso do avental branco, ela sorriu. Parecia aliviada.
Combinamos, então, um encontro para o dia seguinte, logo após o almoço, no mesmo local. A mulher retirou-se, não sem antes agradecer várias vezes.
Assim que a porta se fechou, as forças ocultas da paranóia entraram em ação. Passei a elucubrar: afinal, não seria tudo parte de um esquema para me incriminar. De tão absurda, abandonei a tese sem muito esforço racional.
Sentado no sofá, olhando para as paredes do apartamento, comecei a fazer considerações sobre a crueza do episódio, o destemor singelo de uma mãe, a angústia, o sofrimento daquela mulher, cujo nome, aliás, eu não sabia. Como um desejo tão simples, porém com uma dimensão emocional infinita, não podia ser realizado? Como uma vontade de uma mãe trabalhadora era passível de restrições? Poderia aquela humilde mulher cubana, do início dos anos 90, ser rotulada como uma torpe consumidora capitalista?
Decidi não esperar mais um segundo, resolvi agir. Contei à minha companheira de viagem o ocorrido, pedi sua colaboração. Entre espantada e resignada, ela me explicou melhor as nuances dos sapatinhos de bebê. Afinal, nunca tivera familiaridade com as coisas relacionadas à maternidade.
Assim, cerca de uma hora após conversar com a camareira, lá estava eu rumando em direção a uma das lojinhas freeshop, implantadas em diferentes pontos estratégicos da ilha, uma rentável fonte de recursos para o Estado.
Destinadas rigorosamente apenas aos estrangeiros, restava aos nativos espiar, por entre as paredes de vidro dos pequenos antros do consumo incrustados em meio ao cotidiano de escassez, as maravilhas do capitalismo.
Cubano dentro desses ambientes, só se fosse para trabalhar, como balconista.
Em meio a equipamentos eletrônicos, perfumes, quinquilharias diversas (poucas ainda de origem chinesa), encontrei os sapatinhos. Comprei dois pares, um azul, outro predominantemente cinza.
Não me lembro de outros detalhes, como preço, origem. Só recordo da retirada apressada da loja, o caminhar célere pelas ruas, até chegar ao hotel. A sensação era de estar cometendo uma ilegalidade, um crime. Chegando ao apartamento, escondi “o produto” no fundo mala, afogando-o com camisas, calças, cuecas e meias.
Na manhã seguinte, acordei ansioso, feliz, cheio de orgulho, sentindo-me um grande benfeitor. Embora ainda vez por outra assaltado por uma pontinha de receio. Cenas com imagens de homens fardados, truculentos, revistando minha mala, enquanto a camareira, acorrentada, assistia a tudo impassível, rodavam com insistência na minha tela íntima.
As horas demoraram a passar. Almocei sem tocar nos pratos quentes, só comi a entrada, pão e manteiga. Livrei-me do porco sem gosto.
Por volta de 13h já estava no apartamento, fumando, olhando pela janela.
Então bateram à porta. Estranhei, pois da vez anterior a camareira utilizara a chave mestra. Mas fui abrir. Para meu alívio, era ela, sozinha.
Com um sorriso um tanto encabulado, a futura mamãe agradeceu o convite para entrar. Fui até a mala, retirei o tesouro, devidamente embalado para presente, coloquei em suas mãos, fazendo sinais para ela desembrulhar.
Nunca mais vou esquecer aquele olhar, aquela expressão facial.
A camareira ficou profundamente emocionada ao tocar os sapatinhos. Um breve soluço antecedeu a queda de duas lágrimas pela face morena.
Por alguns instantes, com vigor, ela apertou os sapatinhos junto ao peito. A seguir, tratou de guardá-los, enfiando-os embaixo do avental, posicionando-os no lado direito da barriga. Tirou um elástico do bolso e envolveu o tesouro, fazendo-o integrar-se à barriga.
Agradeceu, agradeceu, tentou novamente pagar, recusei com delicadeza. Abraçamo-nos por um instante, desejei-lhe sorte, ela se retirou. Novamente esqueci-me de perguntar o seu nome.
Acendi outro cigarro. Voltei à janela. Vislumbrei o mar esverdeado. A estonteante beleza natural podia ser apreciada sem restrições por todos, sem distinção. Inclusive pelos nascidos na ilha.
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