O circo do eu
Finalmente, as vaidades reprimidas, sufocadas, enrustidas,
disfarçadas encontraram um lugar para se esbaldarem e se escancararem.
Finalmente, “as pessoas comuns” conseguiram um meio pelo qual conquistaram a
sempre ambicionada – e inatingível, na imensa maioria das vezes - visibilidade.
De um momento para o outro, passaram do absoluto anonimato a que estavam submetidas
para o reino fascinante da exposição, do mostrar-se. E isso ao mundo. Graças
ao Face, ao Instagran, ao Google +, ao twitter
e outras tantas das denominadas redes sociais.
Todos, dos mais retraídos aos mais insinuantes, obtiveram a
senha para ingressar no universo glamoroso da exibição, ou seja, do existir
validado, do existir que realmente interessa, mesmo aos aparentemente humildes,
tímidos, ou retraídos. É o circo do eu.
Estamos todos na tela. Do computador, mas, com alguma sorte,
podemos ser guindados à telona da TV. E isso é magnífico. Conquistamos a fama.
Mesmo de maneira virtual. Se o real se mantém inacessível, todos – ou a imensa
maioria – se satisfazem com o seu simulacro de egoísmo. Aparentemente, a fama
ultrapassa os até então sedentamente perseguidos 15 minutos.
É claro: esse espetáculo narcísico não se configuraria sem o
suporte das imagens, agora ao alcance de todos por meio de máquinas digitais,
de aparelhos cuja origem primária era permitir o contato verbal, das filmadoras
agregadas a qualquer suporte. Somos a mídia, o espelho de nós mesmos, e estamos
radiantes.
Privacidade? Ora, quem a deseja? Por isso é encantador
observar a reação mundial das “autoridades” às bisbilhotices da NSA, a agência
de inteligência dos EUA. Ah, mas aí é uma questão de segurança nacional. Certo.
Pois a segurança pessoal foi às favas. Deliberadamente, cada um pode se mostrar
como quiser, por seus dados particulares, por pixels das fotos, por ideias,
impressões, opiniões, comentários familiares, e as malditas mensagens
altruístas, de auto-ajuda e sentenciadoras de verdades tão absolutas como
simplórias. Algumas mobilizações, alguns protestos também ganham algum espaço. No
entanto, a pegada mesmo é a imagem, inclusive, ou talvez principalmente, os
auto-retratos.
O sujeito está comendo e imediatamente envia a imagem do
prato que degusta, para as “redes sociais”, enquanto seu par não tira os olhos
da tela do smartphone. Tudo se tornou visível e publicável. Não bastasse isso,
somos seguidos por câmeras em todas as partes, que seguem nossos passos e
nossos comportamentos. Sorrimos permanente.
Mais: o Google devassou ainda mais toda e qualquer
intimidade, disponibilizando, com detalhes, a rua, a calçada, o lugar onde você
mora. Ninguém mais pode se esconder. Pior ainda se usar celular ou GPS.
Enfim, o mundo se transformou em um grande programa Big brother,
extrapolando a expectativas literárias do genial George Orwell, em seu livro
1984 – errou por alguns anos.
Essa história. Contudo, não iniciou com o advento das novas
tecnologias. Foi acentuada aos píncaros. Já que antes éramos devassados pelos
governos. Porém, de forma involuntária, éramos, e continuamos sendo, obrigados
a declarar tudo (obrigados inclusive a votar, democraticamente) sob pena de nos
tornamo-nos párias da sociedade. Ou seja, a privacidade sempre foi uma falácia.
De seres humanos, pessoas, cidadãos, fomos aos poucos
reduzidos a eleitores, consumidores, colaboradores, contribuintes, e chegamos
ao ápice: agora somos perfis – virtuais, por excelência. Sem deixar de lado
todos os atributos anteriores, principalmente o de consumidores, pois agora nos
identificam e nos perseguem loucamente. Basta manifestarmos algum interesse por
algum produto que uma enxurrada de publicidade dirigida do referido invade
nossa tela.
Bem, termino por aqui. Preciso checar a minha linha do
tempo, verificar meu status, as solicitações, curtir, comentar, compartilhar. E
postar aquela imagem que tirei de mim mesmo.