terça-feira, 16 de agosto de 2011

A sueca (den svenska)

Depois de alguns dias deliciando-me com a arte e a beleza da capital da Toscana, segui rumo à Viena. Na capital austríaca, tive uma estadia, digamos, ao ritmo de Mozart. Dalí tomei o trem até Munique. Tudo transcorreu de maneira tranqüila. Afora alguns pequenos sobressaltos, nenhuma situação inusitada abalou a minha breve temporada na disciplinada e ao mesmo tempo transgressora cidade alemã.

Depois de quatro dias, segui viagem até Hamburgo, onde tomaria um trem para a Noruega. Na estação, já percebi uma leve animosidade por parte dos funcionários da Banhof. Um pedido de informação era respondido com rispidez, em um idioma ininteligível, ao menos para os meus ouvidos. Mas tudo bem, já estava acostumado, casos semelhantes ocorriam vez por outra, embora não fosse a regra.

No início da noite, aboletei-me em uma cabine já com outros quatro ocupantes. Logo à entrada, à direita, uma mulher morena, compleições acentuadas, pouca altura, por volta de 30 anos. Ao seu lado, um jovem de 20 e poucos anos, loiro, produto típico daquelas paragens. À frente dele, um tipo simpático, com mais de 50, roupas coloridas, pele clara também, postado junto à janela. Na poltrona do meio, outro rapaz, igualmente alvo, de pernas longas, magro, quem sabe 25 anos, com típicos trejeitos de turista “larguei tudo e vou conhecer o mundo”.

Sentei em frente à mulher, de pele mais escura, assim como eu, aliás. Poderia ser uma latino-americana ou, quem sabe, uma árabe, conjecturei. Quando o trem partiu, o sujeito mais velho da cabine iniciou uma conversa com os demais ocupantes. Trocando frases e palavras em inglês, soubemos que ele era um escritor, uma dessas pessoas que se aventuram mundo afora e depois escrevem tratados sugerindo roteiros.

O escritor falava animadamente quando, de maneira abrupta, a porta da cabine foi aberta. Uma alemã com jeito de halterofilista, olhar de psicopata, calças e casaco azul, camisa branca, quepe preto, pediu secamente pelos bilhetes.

Seguro, tranqüilo, apresentei a ela o carnê que me dava direito a viajar por 30 dias por toda a Europa. A alemã olhou, folheou, dirigiu um olhar ferino que me atingiu, desconcertando-me. Examinou-me da cabeça aos pés e começou a esbravejar balançado com a mão direita a passagem, indicando haver algum problema. Pelo visto, muito sério.

Eu simplesmente não entendia nada, absolutamente nada do que ela falava. Procurei argumentar, em inglês, sobre a validade do meu bilhete. Na medida em que eu abria a boca, ela ficava mais furiosa, dava a impressão de recusar qualquer explicação. Decididamente, não foi muito difícil compreender a situação: estava em uma enrascada, a funcionária do trem me ameaçava.

Em total desespero, olhei para os companheiros de cabine. Ninguém moveu uma sobrancelha. Todos, em silêncio, permaneceram impassíveis, distantes. Nem mesmo o afável escritor esboçou qualquer gesto.

Quando já estava imaginando como seria ficar preso na Alemanha, ouvi uma voz feminina. Era da única passageira presente na cabine. Sim, a mulher de cabelos pretos iniciara um diálogo com a irredutível fiscal. Após trocar algumas frases com a alemã, a companheira de viagem dirigiu-se a mim:

- Olha, você deveria ter pagado uma taxa antes de embarcar. Só o teu bilhete não vale para esta viagem. Você precisa pagar agora, ou então descerá na próxima estação e será encaminhado para a segurança da Banhof.

Meu Deus! Imaginei estar sonhando. Não era possível. Alguém falando português comigo! Era inacreditável, mas estava acontecendo! Respondi à minha interlocutora se ela sabia o quanto eu deveria pagar. Ela devolveu a pergunta à fiscal e voltou a falar comigo:

-100 dólares.

Prontamente, enfiei a mão por dentro da camisa, abri o zíper do bolsinho, retirei de lá uma nota de 100, e humildemente, cabisbaixo, estendi à fiscal, que em troca emitiu um comprovante em uma maquininha, entregando-me com um gesto rude. Bateu a porta, foi embora, Graças a Deus. E à minha providencial companheira de viagem.

Desabei na poltrona, aalvo pela mulher de cabelos pretos. À minha frente, ela sorria. Expus sem constrangimentos toda a minha gratidão, em português.

- Não se preocupe, está tudo bem.

Sim, agora estava tudo bem, graças a ela.

Mas quem seria a minha benfeitora, a minha fada protetora?

- Meu nome é Gunilla, sou sueca, moro em Estocolmo.

Procurei disfarçar a minha surpresa. Afinal, o meu imaginário estava povoado de estonteantes suecas louras.

Mas como você conhece a língua portuguesa, perguntei.

- Namorei um africano, de Angola.

É claro: Gunilla não era fluente no idioma de Camões, porém nos entendíamos bem. Ao longo da viagem, até chegarmos à costa, e tomarmos uma embarcação, com trem e tudo para a Noruega, nos conhecemos mais.

Gunilla, funcionária dos Correios da Suécia, era uma viajante inveterada., Vivia na estrada.

Combinamos de nos encontrarmos em Estocolmo, para onde eu iria depois de visitar Oslo. Ela me deu o seu telefone. Ao chegar à capital sueca, depois de me instalar em um agradável hotel, liguei para ela. Combinamos um encontro, em uma estação do metro, às 10 horas de um dia qualquer quase ensolarado.

Convidou-me para almoçar em sua casa, que ficava em um bairro da chamada cidade velha de Estocolmo, um lugar especial, construções antigas, de um tempo remoto. O apartamento da minha nova amiga ficava em um edifício cujas paredes tinham mais de um metro de espessura.

Gunilla preparou pequenos peixes fritos, acompanhados de batatas ao vapor. Enquanto comíamos, trocamos impressões, falamos das nossas vidas. Ela é artista, trabalha com tapeçaria, agora tem um site onde expõe sua arte.

Depois do almoço, fomos passear. Ao me deparar com uma discoteca, não resisti e comprei dois discos do Caetano Veloso para a minha anfitriã. Ao cair da tarde, despedimo-nos.

Dalí rumei até Copenhagen. Voltei a rever Gunilla três anos mais tarde, em Paris – ela se deslocou à capital francesa especialmente para se encontrar comigo. Tentei convencê-la a vir ao Brasil. Sem sucesso. Durante algum tempo, perdemos o contato. Em 2009, graças à internet, voltamos a conversar.

Nutro até hoje uma enorme gratidão à sueca que fala português, minha salvadora, hoje uma querida amiga. Que prometeu me visitar neste final de ano.